Iniciada em 12/08/09

Trmino em 20/01/10




                       1
   Carolina  uma jovem que se
v obrigada a ir embora para o Sul
com os pais que, desde pequena,
no convive bem, e deixar para
trs amigos e amores. Seu ser est
em constante guerra, mas este
mal pode ser dissipado se ela
escolher realizar uma difcil
tarefa... perdoar.

   Nesta emocionante histria de
amor, a autora Priscila Reis
Andrade reuniu graciosamente
todas as virtudes que uma pessoa
pode ter, mostrando como doar-
se a algum e gui-la por um
                                              PRISCILA REIS ANDRADE
caminho diferente que pode
trazer luz para sua prpria vida.      Nasceu em 1991, em Eunpolis  BA,
                                      depois de idas e vindas veio morar em
   Problemas familiares? Ah...
                                      Guarapari  ES.
no so to grandes quando
existem verdadeiros amigos para         Escreve pequenas histrias desde os 11
nos motivar a ser feliz.              anos de idade, mas foi aos 15 que se
                                      interessou de fato pela escrita.
    Descobrir o amor? Para uns
isso significa estar a dois passos     Autora de Dvida Eterna, Viajantes do
da felicidade. E quando as            Tempo entre outras histrias.
circunstncias o levam a recuar e
a pensar na cruel hiptese de
estar longe do verdadeiro amor?

    De pinturas em quadros at
encontros que poderiam mudar
toda sua vida, esta histria ir
emocion-lo mais do que finais
felizes de contos de fadas, e lev-
lo a compreender o que um
sentimento verdadeiro pode
alcanar.



                     Leila Agnoleti




        2
Encontrando
     Perdo
       .
          
Priscila Reis Andrade




                        3
Sumrio

 .
1: 7 - 12

2: 13 - 16

3: 17 - 21

4: 22 - 26

5: 27 - 30

6: 31 - 33

7: 34 - 37

8: 38 - 40

9: 41 - 42

10: 43 - 45

11: 46  49

12: 50 - 56

13: 57 - 60

14: 61 - 63

15: 64 - 67

16: 68 - 71

17: 72 - 76

18: 77 - 79

19: 80 - 83

20: 84 - 85

21: 86 - 89

22: 90 - 95

23: 96 - 99

24: 100 - 105

25: 106 - 111


                 4
26: 112 - 118

27: 119 - 124

28: 125 - 130

29: 131 - 135

Eplogo: 136 - 137

Extras

Uma noite com Pepino: 138 - 142

Vestido: 143

Agradecimentos: 144




                                   5
Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as
coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer
outra criatura poder separar-nos do amor de Deus, que est em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Romanos 8:38-39




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                                 1 captulo
 Desde pequena eu sonhava em morar sozinha, viajar para vrios pases na
companhia apenas de meus pincis, fazer tudo o que eu quisesse sem que para isso
eu precisasse pedir permisso.

 Aprendi a desenhar aos 11 anos de idade com uma senhora que morava ao lado de
minha casa, alis, da casa de meus pais.

  Aos 15 anos comprei minha primeira bicicleta com o dinheiro que eu havia
economizado. Aos 18, fui morar num quartinho alugado atrs da lanchonete onde eu
trabalhava. O dinheiro ali ganho eu usava para pagar minha faculdade de artes
plsticas.

 Aos 21 eu me formei e montei um ateli com alguns colegas de classe. Deu to certo
que decidimos, trs anos depois, montar outros atelis em cidades vizinhas.

 H trs meses eu estou morando numa cidadezinha super-charmosa e fofa a
noroeste da cidade de meus pais. O ateli fica no fundo da minha casa super-
aconchegante e recebe visitas todos os dias.

 Em to pouco tempo j consegui formar duas turmas para as quais eu dou aula de
pintura em tela e em madeira.

 Visito meus pais trs vezes por ms. Apesar de nossa relao familiar no ser das
melhores, eles ainda insistem em ter-me por perto.

 Sempre gostei de ficar sozinha.  muito melhor para pensar quando no tem
ningum mandando voc arrumar a casa, reclamando quando voc quebra algo sem
querer ou se esquece de fazer alguma coisa.

 Continuei refletindo sobre minha vida enquanto regava as violetas em minha janela.

 O problema de viver s  que voc acaba relaxando na hora das refeies. Ainda
mais eu que encaixo esses momentos com os perodos de aula dessa forma:
geralmente acordo s 08h e tomo um copo de leite com achocolatado, quando no fico
com preguia vou  padaria e compro po. Dou aulas de 9h s 11h30. Hoje, por
exemplo, comi arroz que sobrou de ontem, tomates picados em cubinhos e salsichas.
No estava a fim de fazer feijo, muito menos macarro ou fritar alguma carne.  tarde
dou aula tera, quinta e sexta, de 14h s 16h30. Hoje, como  quarta, pude ir ao
centro da cidade com a minha nova bicicleta que tem um cesto lindo na frente.

  Nesta cidade, que eu apelidei de Nil, porque no aprendi a pronunciar o nome ainda,
as pessoas usam mais bicicletas que carros. Deve ser por isso que o ar aqui  to
agradvel. Tambm h muitas rvores e plantas que a enfeitam. Estou muito feliz por
ter me mudado para c.

 Carolina, tem um senhor que quer falar com voc aqui embaixo - Minha ajudante,
Miriam, gritou do p da escada.

             7
 Sa do meu escritrio quentinho e fui para frente do ateli.

s vezes acho que Miriam precisa usar culos. Ela chamou o rapaz de seus 20 anos
mais ou menos de senhor.

  Em que posso ajud-lo?  dirigi-me a ele.

 Bom...  Ele esfregou uma mo na outra para aquec-las  Trabalho numa
empresa de jardinagem  Entregou-me um carto que eu li rapidamente  e estava
pensando se a senhora no est precisando desse tipo de servio  Ele colocou as
mos no bolso e olhou em volta  j que gosta tanto de plantas.

 Encarei-o por um momento.

 Senhora?? Pareo to velha?, pensei.

 Depois virei para olhar meu ateli. Realmente tinha muita planta, eu as adorava,
pintei vrios quadros delas tambm.

 Sorri.

  E ento?-- disse impaciente.

 Estava to distrada em meus pensamentos que quase me esqueci do rapaz.

 Ah, sim. -- Virei-me para ele envergonhada com a minha demora  Ligo para
vocs se precisar.  Levantei o carto  Talvez precise de novas tesouras, luvas,
quem sabe adubo.

 Ele acenou com a cabea:

  Est certo. Tenha uma tima semana.  E saiu.

 Olhei o relgio.

 J era hora de fechar o ateli, Miriam estava vestindo seu sobretudo e pegando a
chave do cadeado de sua bicicleta no bolso do casaco.

  At amanh!  disse ela.

  At. -- Tranquei a porta assim que saiu.

  O que mais gosto de fazer  sentir a natureza. Sinto que h algo mgico em todas as
rvores, folhas, flores, at em sementinhas, razes, a brisa  maravilhosa, a chuva
fininha ento... simplesmente perfeita!

 Sentei-me numa banqueta e fiquei observando, maravilhada, as minhas plantinhas.

                                           ...

  De manh, quando acordei, fiquei deitada uns instantes na cama me lembrando do
sonho que tive na noite anterior. Era to real. Eu estava num jardim e no meio dele
tinha uma ponte um tanto velha, mas muito bonita, eu a atravessei e encontrei um
           8
menininho de cabelos bem cacheados, ele sorriu para mim e segurou minha mo
delicadamente. Depois de passearmos pelo jardim, prometeu me contar alguns
segredos. Ento fomos para um campo coberto de lindas flores, quase dava para
sentir o cheiro delas. O sonho estava to bom, mas acordei com o barulho do
despertador caindo no cho. Que droga!

 Estava ficando mais difcil levantar a cada manh, o frio  muito... congelante! Os
ventos esto fazendo barulhos assustadores, como eu gostaria de abafadores de som.
Graas a Deus o inverno est com seus dias contados, no  nada fcil pintar quadros
quando seus braos ficam quase indobrveis por causa dos 500 casacos de frio.
Exagerei!

 Levantei-me querendo o contrrio e fui at minha cmoda. Eu tinha uma gaveta
enorme s de meias, tinha cores e tamanhos diferentes. Tirei as que eu estava usando
e joguei no cesto de roupas sujas, depois peguei um par de meias verdes com olhos
de sapinho e as vesti.

 Apesar do sonho interrompido eu estava muito feliz hoje.

 Desci as escadas rpido, mas me segurando no corrimo para no escorregar no
piso de madeira. Fui para a cozinha e percebi que tinha algo errado, havia terra
espalhada pelo cho, papel e folhas.

 Segui o rastro de sujeira at a sala de jantar. Abaixei-me para ver melhor embaixo da
mesa e...

 Papai Noel me entregou o presente mais cedo! -- eu disse, enfiando-me ali para
pegar um filhotinho de cachorro todo descabelado. Ele acordou e logo comeou a
abanar seu rabinho. Deve estar com fome, pensei.

 Fomos para a cozinha, peguei uma tigela roxa e enchi de cereais com leite. Ele
comeu tudo num instante.

 Depois de tomar caf e arrumar a casa, levei meu novo amiguinho para o ateli.
Passeei com ele por ali e aproveitei para cuidar de minhas plantas, j que eu tinha
acordado to cedo.

 O telefone tocou, fui atender sendo seguida pelo meu novo cachorrinho.

  Al?-- eu disse.

  Oi, filha. Como vai?-- perguntou minha me.

  Estou bem, e a senhora?  A voz dela transmitia preocupao.

 Estou tima, o problema  seu pai. O corao t com problema novamente, vou
precisar que o leve para o hospital amanh  tarde, porque no quero que ele v
sozinho. Vai poder?

 Sim, posso dar um jeito de mudar o horrio da aula. A que horas  a consulta?


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  14h30 .

 Anotei em minha agenda.

 Certo, ento amanh estarei a s 13h. Precisa de mais alguma coisa, mame?

 No, acho que no. Tenho que desligar agora, querida. Tchau, te amo.

 Fiquei sem ter o que dizer por um minuto e ela desligou antes que eu pudesse me
despedir.

 Voltei para o ateli e sentei-me no cho para brincar com o meu filhote.

 Como eu poderia chamar voc?-- Pensei um pouco enquanto ele tentava pegar a
folha que estava em minha mo. -- J sei! Voc agora  o Sr. Pepino!

 Ele conseguiu pegar a folha por descuido meu. Olhei o relgio.

 Ai, meu Deus! Miriam deve estar chegando. -- Sa correndo, Pepino foi atrs, para
o meu quarto.

 Troquei de roupa a tempo, desci de novo para atender a porta. Junto com minha
assistente estavam meus alunos, que adoraram meu novo amiguinho.



  O dia passou rpido. Consegui mudar o horrio da minha aula de amanh, comprei
rao para filhotes e depois do caf da tarde eu e Pepino iramos ao veterinrio.

 Enquanto ligava minhas caixinhas de som conectadas ao meu mp3, fiquei
observando meu bebezinho animal comer. Era engraado. Ele pegava a rao e
mastigava olhando o que eu estava fazendo.

 Ser que eu seria uma boa me para ele?

 Escolhi uma msica e fui preparar meu achocolatado quente.

 Sentada  mesa, mexendo aquele lquido que se assemelhava  cor da minha pele,
comecei a me lembrar dos tempos de escola. Nunca gostei de onde eu estudava.
Meus pais sabiam disso e por isso deixavam que eu faltasse quando quisesse. Por eu
ser descendente de indgenas e todos, sim todos, serem brancos eu sofria algum tipo
de preconceito. J grudaram at chiclete no meu cabelo por inveja. Ele  bem escuro
e liso, tem um brilho magnfico. Depois daquele dia eu decidi deix-lo na altura do
queixo. Trs dias depois decidi nunca mais cort-lo.

  Olhei para o meu cabelo quase na cintura e sorri. Sempre mudei de opinio muito
rapidamente.

 A msica do mp3 mudou, agora era Perfect love, da mesma banda.

 Senti uma dorzinha no corao. Encolhi-me na cadeira envolvendo meus joelhos
com os braos. Eu tinha um srio problema com mudana repentina de humor

        10
tambm, certamente havia alguma coisa errada com a minha vida e eu precisava
concertar isso antes que fosse tarde demais.

  Pepino tirou a meia do meu p esquerdo e saiu correndo. Levantei-me da cadeira e
fui atrs dele.

                                                ...

  Quando cheguei  Clnica Veterinria fui recepcionada com o mais belo sorriso que
j vi no mundo. Ele veio ao meu encontro e comeou a brincar com o meu filho, que
estava no meu colo.

 Como ele se chama?-- perguntou o rapaz de cabelos castanhos claros e olhos
verdes.

 Fiquei pensando um pouco. Ser que ele acharia idiota o nome que dei ao filhote?

 Desviou os olhos do cachorrinho para me olhar.

 No fala com estranhos... Eu devia saber.  disse ele, rindo da prpria piada.
Estendeu a mo.  Meu nome  Lucas.

 Pepino.  respondi. Ento ele me olhou com uma cara muito esquisita.  O nome
do meu filhote.  expliquei rapidamente e ele voltou a sorrir.

  Ah, sim. E o seu nome, qual ?

  Carolina, prazer em conhec-lo. -- Sorri um pouco sem graa.

 Ele me indicou as cadeiras da sala de espera.

  Tem hora marcada, Carol?  disse sentando-se na recepo.

 Tenho, s 17h10.

Humm... o Dr. j est terminando uma consulta. J vai te atender.

 O celular de Lucas tocou. Ele atendeu levantando-se.

 Fala, amor.  Ele foi para fora da clnica.

 Que timo, pensei desanimada.

 Uma paciente e seu yorkshire saram de uma salinha seguida por um jovem senhor
de jaleco branco.

 So s duas doses, viu?!-- disse ele  paciente. Senti seu olhar em mim e ento
virei o rosto para sua direo.

 Meu Deus! O negcio aqui ta ficando interessante.

 Srt Carolina?-- perguntou a mim. Respondi acenando com a cabea.  J pode
vir.

           11
 Levantei-me com Pepino e fomos. Meu filhote foi vacinado e o Dr. me indicou
algumas vitaminas.

 Depois ns dois fomos a uma casa de raes que vendiam as coisas que o
veterinrio pediu.

 R$ 80,00 s nesse vidrinho?-- perguntei  moa que estava me atendendo.

 Ela fez que sim com a cabea e sorriu desculpando-se. Olhei para o meu filho.

... ser me no  fcil. Entreguei a ela meu carto de crdito.

 Voltamos para casa com uma sacola cheia de coisinhas de cachorro: coleira,
biscoitos, roupas, shampoo, vitaminas, brinquedos...

 Antes de dormir arrumei uma caminha para o Pepino no meu quarto, pesquisei sobre
cachorros na internet e descobri que a raa dele  Cocker Spaniel.

 Depois de ler algumas poesias eu me deitei. Demorei bastante para dormir e quando
enfim consegui tive um pesadelo horrvel.

 Meu pai estava internado num hospital. No quarto, eu e minha me o velvamos
quando de repente ele comeou a tremer e ficar incrivelmente plido.

 Samantha, Samantha, me ajude.  dizia aterrorizado. Parecia que estava faltando
ar, que sentia dores.

 Minha me correu at a cama e comeou a chorar debruada sobre ele.

  Diga  Carolina que eu a amo, apesar de tudo.  continuou ele.

 Minha me tentava controlar os soluos. No disse nada a mim, s chorou mais.

 No consegui entender. Apesar de estar fazendo de tudo para que prestassem
ateno em mim eles nem me ouviam, talvez nem me vissem, era como se eu nem
estivesse l.

 Um tremor mais forte veio e depois tudo se silenciou.

 Meu pai estava morto.




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                                 2 captulo
 As lgrimas brotavam de meus olhos como cachoeira, meu travesseiro ficou
encharcado. Senti-me uma fracassada! Tudo aquilo poderia ser verdade. Meu pai
doente e eu distante. Meu mundo girava em torno de mim mesma, eu estava
machucando pessoas que eu deveria amar.

 O sonho se repetiu umas cinco vezes em minha cabea, eu no conseguia acordar.
Minha conscincia me condenava e eu me sentia cada vez menor. Como eu poderia
mudar a situao? Apagar todas as crticas, repreenses... que droga! Eu quero
mudar, mas por que no consigo?

 A raiva estava inundando meu corao. No raiva dos meus pais, mas de mim
mesma!

 Como pude ser indiferente todos esses anos? Meu Deus, eu sou um monstro!

 Miriam me chacoalhava. Acordei, as ltimas lgrimas haviam rolado tempos atrs.

 O que aconteceu com voc?  perguntou ela sentando-se na beirada da minha
cama.

 Cobri meu rosto com as mos, meus olhos deviam estar muito inchados.

 Tive um sonho muito, muito ruim.  Empurrei as cobertas para me levantar. O
relgio entrou no meu campo de viso e eu dei um salto.  Os alunos j esto l
embaixo. Estou super-atrasada.  Eram 9h40 da manh.

Tudo bem, j resolvi isso. Eles esto pintando paisagens. Acho que  melhor voc
sair um pouco para se distrair.

 Ir para onde, me diga?  Percebi que Pepino estava rasgando alguma coisa.

 Sei l. V tomar um caf em alguma lanchonete...  Algum a chamou ento ela
levantou da cama e desceu as escadas.

 Dei uma olhada pelo quarto.

 Ah, no!  Corri para o Pepino e peguei o carto que ele estava quase engolindo.
Os dentinhos afiados dele fizeram um pequeno corte em meu dedo.

 Levantei-me do cho, peguei algumas roupas, o carto e um band-aid e fui para o
banheiro ouvindo os resmungos de Pepino.

 Lavei minhas mos e coloquei o band-aid.

 A minha barriga reclamava querendo comida.

 Troquei-me de roupa e li o que estava escrito no carto.

 uma boa hora para fazer visita quela empresa de jardinagem, pensei saindo do
banheiro.
     13
 Fui para um Caf perto da rua onde fica a empresa. Estacionei minha bicicleta e
entrei no estabelecimento. Era bem quentinho l.

  Sentei numa banqueta e pedi um caf-expresso e rosquinhas. Sair  o melhor
remdio para esquecer os problemas.

 Meu caf chegou, mas eu preferi comear pelas rosquinhas.

 Um copo de chocolate quente, por favor.  disse o rapaz ao meu lado, que eu logo
reconheci a voz. Ele virou para mim.  No pensei que nos veramos to cedo.  Ele
deu uma risadinha.  Voc no tava com cara de que me ligaria.

 Mostrei a ele o carto que meu cachorro mastigou.

 Ah, ento  isso.  Ele recebeu o chocolate.  Aquele dia eu nem me apresentei.
Meu nome  Douglas.  Estendeu a mo, mas eu no correspondi. Ento ele pegou o
copo com a bebida e ficou brincando.

  Me desculpe.  eu disse, deitando o rosto na bancada de madeira.

  Desanimada...?

  Pior que isso.

 No fique assim.  disse ele me confortando -- O dia est maravilhoso l fora e
seu band-aid azul-claro com desenhos da Minnie  uma gracinha.  No pude deixar
de rir. Ele tambm riu comigo. Vamos fazer um brinde?  Douglas pegou o copo e o
levou em minha direo, eu levantei o rosto.

  Brinde a qu?

 Ao dia. Ao lindo cu azul e nuvens branquinhas. Ao frio. Ao vento. s suas
rosquinhas e ao meu chocolate que est esfriando!  Ele sorriu e eu morri de rir mais
uma vez.

  Voc  sempre palhao assim?

 Sempre que posso.  Continuou sorrindo.  Sabe, hoje eu acordei e decidi que a
vida  uma s...  Eu o interrompi.

  Decidiu que a vida  uma s?

 Voc no me deixou terminar. A vida  uma s, ento a nica coisa vlida  ser
feliz! No vale a pena ficar triste, com raiva, desanimado... entendeu?

 Fiz que sim com a cabea.

  Voc est certo.  Bebi um pouco de caf.

  Voc continua desanimada.  disse estreitando os olhos.

  Estou passando por alguns problemas familiares.

         14
 Ele pareceu sorrir. Eu o encarei muito sria.

 Isso significa que voc tem famlia.  falou sorrindo mais.   um motivo para se
alegrar.  Ele bebeu seu chocolate quente.

 Quase ca da cadeira. O otimismo dele era inacreditvel.

  Voc  maluquinho! -- deixei escapar.

  E voc  sortuda.  Douglas deu uma risadinha baixa.

  Eu? Por qu?

 Por dois motivos. No, trs.  Ele parecia pensar, esperei um pouco e ento
continuou.  Primeiro, voc tem uma famlia; segundo, voc tem um cachorro.  Ele
levantou o carto.  Terceiro, voc agora  minha amiga.  Sorriu para mim e eu
retribu o sorriso.

  Mas voc tambm deve ter tudo isso...

 Ele passou os olhos pela lanchonete enquanto pensava.

 No exatamente. Meus pais morreram h muitos anos. Eu tenho um peixe, no um
cachorro. E voc no pode me considerar seu amigo.  Ele fez uma pausa.  Por que
eu nem sei o seu nome.  Cruzou os braos.

 Preferi no fazer comentrios sobre os itens anteriores.

 Carolina, prazer em conhec-lo.  Sorri  Agora pode ser meu amigo?

 Ele fingiu pensar.

  Claro que sim.  Deu um lindo sorriso.

 Fiquei observando meu novo amigo por um instante. Ele tinha os olhos levemente
puxados e a cor deles era castanho escuro, o cabelo liso quase em cima dos ombros,
da mesma cor dos olhos.

  Algo errado?  perguntou ele. Parecia um pouco preocupado.

  No, de forma alguma.

 Um garom chegou at ns:

 Posso?  Apontou para nossos copos e meu prato com uma rosquinha inteira e
outra pela metade.

 Peguei a rosquinha pela metade. Douglas pegou a outra. Pagamos a conta e samos
do caf.




        15
 A tal empresa de jardinagem era uma loja pequena com um enorme jardim que a
cercava. Ns dois ficamos caminhando por entre as plantas sem dizer praticamente
nada.

 Ento... por que est com problemas na famlia?  disse ele puxando assunto.

 Demorei um pouco para responder. Ser que era certo expor meus defeitos no
primeiro encontro?

  Sou uma filha ausente.  disse baixinho.

 Hmm...  De alguma maneira eu me sentia a vontade para conversar com ele.

 No sei ser muito afetiva com eles. Aconteceram algumas coisas na minha infncia
que fizeram com que eu me afaste dos meus pais.

 Senti que ele havia estremecido com o que eu disse. Olhei para ele e o seu
semblante era de receio.

  O que houve?  eu perguntei.

 Virou para mim um tanto surpreso e deu um sorriso forado, no tpico dele.

  Nada.

 Olhei o relgio no meu pulso.

 Eu tenho que ir agora.  Comecei a caminhar rapidamente em direo a minha
bicicleta. Douglas me acompanhava.

  Quando nos veremos novamente?

 No sei.  Pensei um pouco.  Aparea algum dia no ateli.  Sorri para ele,
montei em minha bicicleta. Quando ia saindo ele segurou meu brao fazendo-me
parar.

  Faa de hoje um dos seus melhores dias, t bom?

 Apesar de sua voz estar banhada de delicadeza, aquilo parecia uma ordem.

 Balancei a cabea positivamente e voltei para casa.




         16
                                  3 captulo
 Depois do almoo eu peguei meu Corsa preto na casa de Miriam e fui para casa dos
meus pais. Coloquei um CD de msica clssica no carro.

 Procure relaxar. A tarde vai ser super-agradvel. - pensei em voz alta.

 Cheguei a casa de meus pais exatamente 13h03.

  Atrasada 5 minutos.  disse minha me abrindo a porta.

 Essa vai ser uma longa tarde, pensei.

 3, na verdade.  retruquei, tentando sorrir. Entrei na casa, havia algumas coisas
novas, estava bem decorada e alegre.

  Edgar, a Carolina chegou.  gritou minha me.

 J vou indo.  disse ele se apoiando no corrimo para descer as escadas. Estava
com a aparncia tima.

 Faa de hoje um de seus melhores dias, lembrei.

 Fui ao encontro de meu pai e o abracei. Havia muito tempo que no sentia o calor de
um abrao.

 Como est papai?-- perguntei a ele enquanto amos para a sala de estar.

  Estou bem, filha, apesar de tudo...  disse ele.

 Apesar de tudo..., mordi o lbio ao ouvir essa expresso.

 Sua me  muito dramtica, no preciso de um mdico. Sou forte como um touro.
 continuou ele e bateu o punho no peito, depois deu um largo sorriso. Eu tambm
sorri.

 Minha me nos trouxe ch e sentou numa poltrona.

 Como esto as coisas no seu ateliezinho?  disse minha me depois de bebericar
o ch.

 Eu a encarei. No  o maior empreendimento do mundo, mas tambm no pode ser
chamado de ateliezinho.

 Est timo, estou conseguindo fazer maravilhas... sozinha.  falei de forma spera.

  Droga!

 Meu pai riu. Minha me adora provocar as pessoas, mas eu vou conseguir fazer de
hoje um bom dia.

 J d para comprar um iate para mim, filha?-- disse meu pai rindo mais.

           17
 Muito engraado, pai.  eu disse.  Me contem sobre vocs.  tentei.

 Minha me fitou meu pai, eles trocaram um olhar desconfiado. Ajeitei-me no sof
disposta a esperar.

 Bom, estamos economizando dinheiro...  disse minha me, cautelosamente  Vou
vender a minha loja e... -- eu a interrompi.

 No pode fazer isso, demoramos anos para conseguir montar sua loja!

  Filha, escute sua me.

 Continuando. Pretendemos vender nossa casa tambm para comprar outra no sul
do pas.  Eu j estava pasma com as revelaes de minha me.  Queremos ficar
mais perto de nossos parentes.

  E voc vai conosco, Carolina.  disse meu pai, severo.

 Eu? Por qu? Eu no quero ir! E nem tentem me obrigar! -- explodi. L se vai meu
bom dia.

 Olha aqui, mocinha, voc  nossa filha e faz o que a gente mandar! -- falou minha
me, nervosa.

 Quantos anos vocs acham que eu tenho? J mando em mim mesma, sabiam?,
apesar de estar morrendo de raiva eu s imaginei as palavras para no acabar de vez
com a minha pequena felicidade.

 Quando estiver pronto, v para o carro, estarei l.  disse eu para meu pai,
ignorando Samantha.

 Sa da sala, fui para meu carro e liguei o som.

  Quando estarei livre de tudo isso? -- Encostei a testa no volante.

 A conversa havia durado 20 minutos, tempo mais que suficiente para eu querer
mudar de galxia.

                                           ...

 Foi um desastre!  eu disse a Miriam pelo telefone, minutos depois de ter chegado
em casa.

  O que eles aprontaram desta vez?

  Querem me levar para o sul do pas.

 Ela no conseguiu falar nada.

  No sei o que fazer, no quero ir embora.

 Calma, vamos dar um jeito. Seus pais tm que entender que voc tem quase 24
anos, no precisa de bab.
        18
 Esse deve ser o mal de ser filha nica.  eu disse, desabando no sof.

  verdade. Bom... desculpa, amiga, mas eu tenho que desligar, a gente se fala
outra hora. Tchau, beijo.

  Tchau.  Coloquei o telefone no lugar e voltei para o sof.

 Acabei cochilando. O telefone tocou, eram 18h10.

  Al? -- eu disse.

  Er... oi Carol,  o Douglas. Lembra de mim?

  Hmm, Douglas? Pra falar a verdade no.  brinquei.

 Droga, ela me deu o nmero errado.  disse ele baixinho, mas deu para ouvir.

 Eu comecei a rir.

  Quem te deu meu telefone?  perguntei.

  Carol?

  .

  Miriam.

 Eu ri de novo e consegui visualiz-lo sorrindo em minha mente.

  Bom... e o que queria falar comigo?

 Eu queria saber como foi o seu dia.  senti que ele sorria de novo.

 Voc  uma gracinha! Se pudesse, eu apertaria as suas bochechas.

 Ns dois comeamos a rir.

 Engraado, parece at que nos conhecemos h um tempo. Ah, e pelo jeito seu
dia foi timo.  disse ele.

 Na verdade, no.  falei envergonhada  Estive na casa dos meus pais agora a
tarde e... bom, ns brigamos.

 No acredito, Carolina, por que no consegue segurar a raiva por um momento? 
Ele parecia chateado.

 Voc fala isso porque no tem pais!  disse rapidamente, sem pensar, e me
arrependi na mesma velocidade.

 Ele ficou em silncio.

 Me desculpe, eu no queria ter dito isso.  falei. Ento ele suspirou. 
Sinceramente, no sei como voc me aguenta, s fao coisa que no deve.


         19
 No  bem assim. Todo mundo erra. S...  A voz dele estava trmula  temos que
nos arrepender e no continuar no erro.

 Amm.  eu disse. E ns dois comeamos a rir de novo.  Como foi o seu dia?

 Foi bom. De manh dei comida para Dori, minha peixa. Fui ao Caf e conheci
minha melhor amiga e...  interrompi-o.

  Conheceu?

 . Ela era minha amiga, mas a eu peguei o telefone dela com a Miriam, agora ela
 minha melhor amiga.  No pude deixar de rir. Todas as pessoas do mundo deviam
ser iguais a ele. Sem dvida.  Continuando: A ns passeamos. Depois eu almocei e
passei no ateli dela para pegar o telefone e conheci o filho dela, Pepino. Pensei em
seqestr-lo  Ele comeou a rir , mas me lembrei do band-aid no dedo da minha
melhor amiga e imaginei que o filho dela devia ser bravo.

 Eu encontrei a pessoa certa para ser meu amigo. H um tempo eu no me sentia
assim, to  vontade com algum.

 Nossas conversas eram muito animadas, ele sempre procurava um jeito engraado
de contar algum fato de sua vida e no fim me convidava a um passeio no fim da tarde.
Douglas no era daquele tipo de pessoa que gostava de apontar os erros ou ficar se
gabando por no ter tantos problemas, pelo contrrio, ele entendia quando eu no
queria falar de algo e tentava me animar o tempo todo.

 Carol, ser que voc aceita jantar comigo amanh  noite?  ele disse, parecia um
pouco sem jeito.

  Claro!  falei sorrindo.

  Passo a s 19h30, t?

  Certo.

  At amanh, melhor amiga.

  At.

 sempre bom conversar com algum alegre, parece que voc pega um pouquinho
da alegria para si. Sinto-me menos solitria agora com o Douglas como amigo.
Gostaria de t-lo conhecido muitos anos antes.

 Levantei-me e fui dar comida para meu beb. Ele parecia mais gordinho agora, uma
graa! O suter lils que ele estava vestindo lhe caia muito bem.

 Lavei as mos e fui preparar o meu lanche. Passei margarina no po de frma e
coloquei ch numa xcara.

 Enquanto comia e repassava em minha mente tudo o que havia acontecido naquele
dia, uma pontada de tristeza e um pensamento desconcertante me veio.

         20
 Douglas me tem sido til e o que eu tenho feito para retribuir isso?

 De uma forma ou de outra, eu acabava me sentindo culpada. Pensei ter conseguido
controlar minha mudana de humor, mas no... estava pior.

 Eu preciso de um psiclogo, urgente!

 Algo estranho me deixava assim de repente, algo que eu pensava ter acontecido
muito tempo atrs e ainda hoje me atormentava.

 De repente eu achava que no merecia a amizade dele. Na verdade, amizade de
ningum.

  Durante anos procurei o causador de todos os meus problemas, e como eu no
aceitava colocar a culpa em mim mesma, Edgar e Samantha ficaram como
responsveis por tudo. Mas por eu saber que o que se passava no era devido aos
meus pais, eu conseguia me magoar de alguma forma.

 Por que eu no conseguia me manter bem por um bom tempo? Por que sempre que
eu estava feliz alguma coisa me lembrava que eu no merecia aquilo?

 Comecei a chorar desesperadamente. Pepino entrou em pnico.

 Eu no mereo o ar que respiro!

 Afastei os objetos da mesa apoiei meus braos nela e escondi o rosto enquanto
chorava.

 Por que durante a minha vida inteira eu deveria sofrer? Por que essa angstia no
podia ser dissipada? Se eu estava fadada a entristecer todos a minha volta... de que
vale continuar vivendo?

 Levantei meus olhos, uma idia surgindo em minha mente enquanto a dor dilacerava
meu corao. Meu cachorro chorava baixinho aos meus ps.

 De repente outra idia me veio, deixando-me confusa.

  H tempo?-- perguntei a mim mesma em voz alta.

 Pepino lambeu meu tornozelo, assustando-me. Peguei-o no colo e fiz carinho nele,
desculpando-me.

 Por um breve momento pensei em deix-lo para sempre. No s a voc... De que
isso me valeria? Sei que voc no me entende muito bem, mas no seria justo...  Eu
ainda me sentia esquisita.  Deixa pra l.  Ele lambeu meu queixo.  Vou interpretar
isso como um eu te amo.  disse a ele.

 Sorrir no era a coisa mais fcil do mundo neste momento, mas pelo menos a dor
estava indo, muito lentamente, para longe. Uma coisa eu j havia decidido: iria colocar
a 2 idia em prtica, amanh mesmo.



           21
                                 4 captulo
  Fomos dormir cedo, em consequncia disso acordamos cedo tambm. J era em
tempo, eu precisava trabalhar.

 Ol, meninas.  eu disse calorosamente s minhas alunas. Eu estava determinada
a impedir que algo atrapalhasse meu dia.

  No sbado eu dou aula de 9h s 10h30, de pintura em madeira. Tenho oito alunas,
trs senhoras, uma menininha e quatro adolescentes.

   Meu ateli mais parece uma estufa, tem um monte de plantas penduradas nas
armaes de ferro que sustentam o teto de vidro e tem vasos perto das paredes,
tambm de vidro. As mesas retangulares, para duas pessoas cada, formam duas
fileiras, no caminho entre elas  preciso passar desviando-se dos cachos de folhas e
flores que as plantinhas derramavam.

 Eu estava me sentindo bem melhor. At Pepino estava colaborando.

 Carol.  chamou Miriam, aparentemente do escritrio na minha casa. O ateli era
ligado a casa pela porta dos fundos.

 Fui at a escada.

  Fala.

 Ela estava descendo com um quadro e um pincel nas mos.

 Esqueci de te dar ontem.  Ela me entregou o pequeno quadro que eu fiquei
vendo, maravilhada.  Gabriel pediu emprestado o pincel para pint-lo em casa e
trouxe um pouco antes de voc chegar.

  Quando foi que ele pintou isso?  perguntei.

  Comeou ontem pela manh.

 Ficou lindo! Mas como conseguiu fazer Pepino ficar parado?  Sorri.

 Ah... isso eu no sei.  ela sorriu tambm.

 Peguei o pincel e o guardei. Entrei em casa e arrumei um lugar para colocar o
quadro. Ficou realmente bom.

 Gabriel era um excelente aluno. Bastante tmido, eu diria que se esconde atrs dos
culos, mas  super-educado e gentil. Ele aprende muito rpido tambm.

 Confesso que fiquei surpresa por ele querer me dar o quadro.

 Mas ganhar presente  sempre bom.  disse, sorrindo, para mim mesma.




        22
  Eu e Pepino almoamos no apartamento de Miriam e Raquel, sua irm de 12 anos.
Depois deixamos meu filho no Pet shop para tomar banho e fomos ao centro da
cidade fazer umas comprinhas.

 Quando  que vai nos apresentar esse seu amigo misterioso? Quero v-lo!  exigiu
Raquel.

  Misterioso?

 , oras, a Miriam j saiu com praticamente todos os rapazes nesta cidade. Se ela
no conhece teu amigo... ele se torna misterioso!

 Eu ri. Miriam fechou a cara.

  No sa com todos!  ela disse.

 Quase todos.  falei me divertindo.  Que tal esta blusa?  Mostrei uma camiseta
branca com um panda bastante meigo estampado.

   a sua cara.  disse Miriam.

  Como uma roupa pode ser a cara de uma pessoa?  disse Raquel.

 Eu e Mriam nos olhamos.

  Sendo.  respondemos juntas.

  No entendo.  Raquel sentou-se no cho esperando-nos.

 Acho que deve levar uma blusa de frio, o inverno est indo embora, mas  noite
ainda venta bastante.

 Assenti e fui procurar uma blusa que ficasse bem com a minha roupa de panda.

 Minutos depois voltei com uma blusa de tric roxa com trs listras brancas nas
mangas.

 Se eu usar aberta acho que ficar legal.  eu disse a ela olhando-me no espelho.

  Como se sente?  perguntou Raquel para mim.

  Bem, por qu?-- No havia entendido o motivo da pergunta.

 Ela me avaliou. Eu e Miriam esperamos.

  Quero dizer em relao a Douglas.  ela falava sria.

 Eu e Mriam no nos aguentamos de tanto rir.



 Buscamos Pepino no Pet shop e ficamos passeando no centro para fazer hora. Eu
preferia no ficar sozinha em casa por muito tempo, era melhor me ocupar com coisas
boas.
        23
  Raquel estava levando Pepino, ou melhor, sendo arrastada por ele. Ela  um pouco
menor em relao s meninas de sua idade, mas bastante inteligente. Tem os cabelos
ruivos cacheados abaixo dos ombros, eu a fiz prometer no cortar menor que isso. A
me de Miriam e Raquel se divorciou do marido quando estava grvida de Raquel. Um
tempo depois ela morreu. As duas vivem sozinhas num apartamento a duas quadras
da minha casa. Esse  um dos vrios motivos pelos quais eu me recuso a morar no
sul, elas so a minha famlia.

  Est tudo bem com voc, Carol?  perguntou Mriam.

 Demorei a responder. Ela passou o brao esquerdo em volta de meus ombros.
Esforcei-me para afastar meus pensamentos.

  Est.  eu disse.

 Me deixou preocupada esses dias. S de olhar para voc dava para saber que
tinha algo errado.

 Ser por isso que ganhei o quadro de Gabriel?

  Estava to ruim assim?

 Ela riu um pouco.

 Me responde isso voc. Olha, se precisar de qualquer coisa pode contar comigo!

 Eu balancei a cabea positivamente.

 Mimi, segure ele!  gritou Raquel. Pepino havia se soltado da coleira e vinha
correndo em nossa direo.

 Ela conseguiu peg-lo, mas foi derrubada no cho.

   isso a, Pepino, do jeito que eu te ensinei!  sorri.

 Fica ensinado coisa errada pra ele, fica...  disse ela se levantando.  Vamos para
casa, daqui a pouco sua mame vai ter um encontro.  falou para Pepino.

  Aaah... j disse que no  um encontro...

                                             ...

s 19h27 ele havia estacionado a pequena moto azul em frente a minha casa.

 A casa ficava muito vazia sem Pepino correndo nela. Raquel havia implorado para eu
deix-lo com ela at a hora que eu voltasse.

  Abri a porta instantes depois de ele ter tocado a campainha. Senti-me
completamente absorta pelo perfume magnfico que ele usava. Era um cheiro verde,
refrescante mas intenso.

 Oi?!  ele falou, confuso pela minha demora.  Ainda decidindo se vai sair comigo
ou no?
         24
 Senti meu rosto queimar.

 No  isso.  disse rapidamente trancando a porta.  Eu s... estava avaliando o
ar.

 Estava o qu???, pensei.

  Temperatura?

  Isso!  Apressei em dizer.

 Ele sorriu. Fiz o mesmo, s que menos animada. Fomos andando.

 No vai fazer muito frio. A propsito  Ele virou para mim enquanto nos dirigamos
para a moto , adorei sua blusa com o Panda.

 Sorri com sinceridade essa vez. Ele deve ter percebido, pois seus olhos brilharam.

 Tenho a melhor amiga  Ele me entregou um capacete-- mais fofa do mundo! 
parecia criana dizendo isso.

 Eu comecei a rir. Era incrvel como eu me divertia com ele.

 Tenho que retribuir, pensei.

 Ah, j ia me esquecendo.  Fiz com que segurasse o capacete e ficasse de frente
para mim. Com as pontas dos dedos apertei as bochechas macias e perfeitas dele.
Douglas riu.  Sua risada vai ser minha msica preferida agora.  Peguei o capacete
de volta.

 Acho que vai enjoar de tanto ouvi-la.  Ele sentou na moto. Eu fiz o mesmo.

 Duvido.  eu disse desafiando-o. Coloquei as mos em seus ombros assim que
ele ligou a moto.

 Aposto 100 pratas que no fim desta noite voc vai me mandar calar a boca.  Ele
segurou minhas mos e as tirou dos seus ombros.

 Fechado!  eu disse. Douglas passou meus braos em volta de sua cintura,
fazendo-me abra-lo. Ele percebeu meu desconforto.

  Costumo dirigir rpido.  disse, justificando-se.

 No quero morrer hoje.  brinquei. Ento ele deu uma risadinha baixa e samos
dali.

 Fomos a um restaurante super agradvel. Os lustres eram em estilo oriental e as
mesas eram pequenas com dois bancos largos acolchoados entre elas. Parecia uma
mistura de dois estilos, mas era interessante.

 Pedimos a comida e ficamos um tempo olhando uma pracinha do outro lado da rua.
O silncio estava me incomodando, pensei em alguma pergunta para fazer a ele.

             25
Quando virei para olh-lo, ele parecia estar me observando h um tempo. Seu rosto
no ficou corado, mas ele mordeu o canto do lbio, sem jeito.

  Abaixei os olhos e o garom chegou com os pratos. Que alvio. Imaginei que ele
tenha pensando o mesmo.

  Mora aqui h muito tempo?  perguntei por fim.

 Desde que nasci.  respondeu trocando os talheres de lado.  E voc?

  H trs meses.

 Ele me olhou bastante srio.

  Por acaso... fugiu de casa?

 No, no.  respondi rindo um pouco.  Eles me expulsaram mesmo.

 Ele parecia chocado.

  Tava brincando, calma.

  Voc no parece ser uma filha terrvel como diz.

  Talvez eu no seja...  disse mais para mim mesma.

 Desta vez veio a comida.

  Hmmm... parece timo!-- falou Douglas.

 Enquanto jantvamos, lembrei-me de um fato.

 Preciso te dizer uma coisa.  falei. Ele me olhou e parou de beber refrigerante,
pousou o copo delicadamente na mesa.

  O que ?

 Meu dia foi ma-ra-vi-lho-so!  disse. Ento um sorriso brilhante preencheu o seu
rosto.

 Estou muito orgulhoso de voc, Carol. Muito mesmo.  Ele ainda sorria.  Merece
at um prmio.

  Jura? O qu?

 Ele deu um sorriso diferente.

  Segredo.




        26
                                  5 captulo
 Estvamos andando na pracinha. Era a primeira vez que eu ia ali. Tinha vrias
rvores, uma rea para as crianas brincarem, alguns bancos e um lago com uma
ponte simples.

 A Lua est linda hoje.  ele disse enquanto amos em direo  ponte.

 Paramos no meio dela, apoiei meus cotovelos na mureta enquanto olhava para o
cu. Ele fez o mesmo, s que um pouquinho afastado de mim.

  Me conte um pouco mais de sua vida?  disse Douglas.

  Acho que j sabe de tudo. O que mais quer saber?

 Hmm... Qual  o nome dos seus pais? Qual  a sua banda preferida? Voc tem
uma religio? J teve algum cachorro antes do Pepino?...  Ele foi me enchendo de
perguntas. Eu j havia esquecido qual era a 1.

  Calma, calma.  eu disse rindo  T indo muito rpido.

  Desculpe.

 No precisa se desculpar.  Sorri  Antes de responder suas perguntas quero que
responda as minhas, certo?

 Ele ficou um pouco apreensivo.

  Certo.  respondeu.

 Endireitei-me para olh-lo de frente.

 Vamos  1 pergunta  Como ele estava com medo, decidi perguntar algo bobo ,
qual  a sua cor preferida?

 Ele sorriu.

  Vermelho. E a sua?

 Lils. E...  Pensei um pouco antes de continuar  h... eu queria saber por que de
vez em quando voc parece meio tenso, preocupado com alguma coisa...

 Ele olhou para o lago, pensando.

 Voc parece que vive muito bem, e tal...  eu disse.  Mas... tem algo errado?

 Voc j tem problemas demais para ter de se preocupar com os meus.  Douglas
no expressava emoo em suas palavras.

 Os amigos servem para ajudar os outros.  Estendi a mo e a coloquei em seu
ombro. Ele me olhou, triste.


           27
 Aquilo me fez tremer. Por mais ilgico que parecesse, eu jurava que ele era a nica
pessoa no mundo que no se entristecia. Minha esperana de ter uma vida feliz
estava fugindo de minhas mos.

 Se ele no consegue, do jeito que . Imagine eu.

 Como eu poderia confort-lo se eu tambm precisava de conforto?

 Mesmo assim, para isso servem os amigos, lembrei afastando de mim tudo que me
deixava chateada.

 Eu o abracei sem saber o que dizer.

 Ele ficou sem jeito de incio, mas depois endireitou o corpo, levantando-se, e me
abraou. Encostou o queixo no alto de minha cabea e fez carinho em meus cabelos.
Seu abrao era quentinho e macio.

 Ns vamos achar uma soluo para os nossos problemas.  disse ele com uma
voz amvel.  Eu prometo.

  Apertei os olhos bem forte. No  hora de chorar!! No adiantou, pequenas
lgrimas rolaram. Eu no sabia se estava chorando de alegria ou de tristeza.

 Ele levantou meu rosto com uma das mos e ficou espantado por me ver chorando
em silncio.

  Por que est chorando?  perguntou numa voz quase inaudvel.

  Eu no sei.  Estava confusa.

 Ele me olhou por um instante e enxugou delicadamente minhas lgrimas com as
pontas dos dedos. Ento fechou os olhos e encostou sua testa na minha. Por um
breve momento pensei em ultrapassar os limites de nossa amizade, mas depois
desisti, no fazia sentido.

 Aquilo me deixou mais calma. Eu parei de chorar.

Tente no fazer isso perto de mim.  disse ele abrindo os olhos e se endireitando
novamente.

  Isso o qu?

  Chorar.  Douglas estava sussurrando.

  Por qu?

 Ele olhou para os lados esperando que as pessoas atravessassem a ponte logo, mas
como demoravam, ele segurou meu rosto e disse em meu ouvido:

  Costumo chorar quando vejo algum chorando.

 Comecei a rir. Ele mordia os lbios, envergonhado. Era a cena mais fofa que
presenciei em toda minha vida.
 28
 Depois fiquei parada, ainda abraando-o pela cintura, olhando para seu rosto
perfeito. Eu devia estar com um sorriso bobo nos lbios. Ele colocou uma das mos
em frente aos olhos enquanto a outra estava apoiada em meu ombro.

  Est me deixando sem graa.  disse ele.

 Tenho o melhor amigo mais lindo do mundo!  falei num tom infantil.

 Ele tirou a mo do rosto e sorriu, levemente corado, para mim.

 Ah, tenho que dar o seu prmio.  disse ele.  Feche os olhos.

 Mesmo desconfiada fiz o que ele pediu. Douglas deu uma risadinha baixa, to
graciosa quanto todas as que ele j deu.

 Esse  meu prmio? A minha msica preferida tocada exclusivamente para mim? 
eu disse ainda de olhos fechados.

  No, no.  disse rindo.

 Ele segurou meu queixo de forma delicada e afastou a franja do meu rosto,
aproximou-se e me deu um beijo afetuoso na bochecha.

 Que sensao maravilhosa, pensei.

 Ele deu um passo para trs e segurou minhas mos.

  Espero no ter te deixado constrangida.

  No, t tudo bem.

 Ele sorriu.

 Foi a nica forma que pensei que serviria para te mostrar o quando j  especial
para mim.  disse ele.

 Se quiser mostrar isso de novo algum dia... fique  vontade.  falei. Ns dois rimos.



 Fomos para o apartamento de Miriam para buscar Pepino. Raquel atendeu a porta.

 Uau!  disse ela olhando para o meu amigo.  Miriam, vem ver o namo...-- Eu
pulei em cima dela tampando-lhe a boca.

 Douglas comeou a rir.

 Miriam apareceu com meu filho no colo, ele estava dormindo. Eu o peguei mas antes
olhei para Raquel mandando ela se comportar.

  Obrigada.  disse a elas.

  Nada.  respondeu Miriam.

             29
Traga ele aqui mais vezes... no to falando do Pepino.  Raquel falou enquanto
descamos as escadas.

 Ns dois rimos baixinho para no acordar meu filhote.



 Douglas me levou at a porta de minha casa e a abriu para mim. Coloquei Pepino no
sof e voltei para me despedir do amigo mais doce que j conheci.

 Ele estava olhando para o cu quando desencostei a porta e apoiei meu ombro nela,
cruzando os braos.

  incrvel como foram criadas.  Ele ainda estava virado para frente no meu lado
esquerdo e se referia s estrelas que enchiam o cu.

  Exploses...?

  Deus.

 Fiquei em silncio. Nunca gostei muito de falar sobre essas coisas.

 Ele virou para mim sorrindo, quase rindo.

 Acho que tenho uma soluo.  Douglas estava extremamente feliz. Aposto que
danaria se houvesse msica.

  E qual ?

  Vou me reconciliar com um amigo com quem no falo h 10 anos.

 Quase cai para trs.

  10 anos? E acha que ele ainda lembra de voc?

 Ele deu um sorriso vitorioso.

  Ele nunca se esqueceu de mim.

 Eu ergui uma das sobrancelhas. Ele percebeu meus pensamentos e cruzou os
braos, rabugento.

  Pra de pensar besteiras, Carolina.

  Comecei a rir e baguncei o cabelo dele. Sentamo-nos em frente a minha porta e
ficamos conversando a noite toda. Mas ele no tocou no assunto de novo.




       30
                                 6 captulo
  Trs semanas se passaram. Coisas boas e coisas ruins aconteceram. As ruins 
que minha me conseguiu vender a loja; Pepino passou mal duas vezes; Raquel ficou
de recuperao em matemtica; Douglas viajou a negcios durante uma semana; eu
quebrei o brao. As boas  que minha me no quer abaixar o preo da casa por isso
no consegue vend-la; entraram mais dois alunos na minha turma; e o inverno
acabou!

 Ande logo, Carol!-- disse Miriam da porta do meu quarto.  Para que se arrumar
tanto?

 S mais um minuto, Mimi.  respondi fechando o zper da minha bota.  Como
estou?-- Pus-me de p.

  Linda de morrer! -- disse Raquel.

 Fiz uma cara de desanimada.

  Pareo uma orca com esse vestido!!  falei olhando no espelho.

 Miriam bateu a mo na testa.

 Pra de falar besteiras, garota. Vamos!  Ela pegou meu brao, o que no estava
engessado, e me arrastou escada abaixo.

  Fazia muito que no usava roupas leves, ento eu estava me sentindo
desconfortvel apesar de estar usando meu vestido preferido, de alcinha, lils, com
flores rosa. Essa sensao piora quando se tem o melhor amigo mais lindo do planeta
que acaba de chegar de viagem e est te esperando com um perfume esplndido,
sentado no sof de sua casa, pronto para te dar uma bronca por ter quebrado o brao,
mesmo que tenha sido sem querer.

 Entrei na sala tentando fazer o mnimo de barulho, pois ele estava lendo uma revista.

  Por que Miriam e Raquel podiam ir de cala jeans e eu no? Injustia!, pensei eu
tentando achar alguma coisa para cobrir os joelhos.

 Ele levantou os olhos e eu quase sa correndo, o que no me permitiu faz-lo foi o
sorriso fabuloso que Douglas deu.

 J estou ficando sem adjetivos para dar a ele.

 Eu estava morrendo de saudade de voc, Carol.  disse ele depois de levantar e
se aproximar de mim.

 Ele me olhou de cima a baixo.

 Help-me!

 S deu tempo de esconder meu brao com o gesso todo rabiscado.

           31
  Voc est belssima!

 Dei meu melhor sorriso e o abracei.

  Tambm estava com muita saudade de voc.

 Quando me afastei ele segurou meu brao quebrado e me olhou srio.

  Como fez isso?-- disse baixinho.

 Ai.

 Coloquei a mo em frente  boca e olhei em volta procurando uma boa desculpa.

  Eu... ca da escada.

  A verdade... -- Ele uniu as sobrancelhas.

 Olhei para o cho.

  Foi do telhado que eu ca. Pronto.

  Ele balanou a cabea como forma de reprovao, mas depois afagou meu queixo,
fazendo-me levantar o rosto, e sorriu.

 Mas graas a Deus voc est bem agora. Ah... vai ter que deixar eu escrever meu
nome em seu gesso.

  T bom.  Sorri para ele.



 Eu, Miriam, Douglas e Raquel fomos a uma lanchonete-karaok. Depois de
comermos hambrgueres, Raquel subiu no palquinho para cantar.

  Salvem nossos ouvidos!-- implorou, brincando, Miriam.

 Ns rimos.

 O que fez de interessante enquanto estive fora?  perguntou Douglas para mim.

 S dei aula,  Suspirei -- visitei meus pais...  ele me interrompeu animado.

  Como foi?

  Bom... no brigamos porque eu sa rpido de l.

 Ele acenou com a cabea desaprovando.

 Raquel j estava no final da msica. Batemos palmas para ela e ento desceu do
palco sorridente.

  Sua vez, moo.  falou ela para Douglas.


          32
 Minha voz  horrvel! No riam. -- Ele subiu no palco depois de dizer isso para
ns. Pegou o microfone, escolheu a msica Pais e filhos, de Legio Urbana, e se
sentou no banquinho.

 Comeou a cantar. Realmente, a voz dele era mais bonita quando ele falava, no
cantava.

 Mas ele tinha que ter um defeito, n?!. Sorri para ele quando me olhou.

 J lhe contou que talvez v embora?  disse Miriam baixinho para mim.

 Ainda no.  Coloquei meus cotovelos na mesa e apoiei meu rosto nas mos.

 Ficamos prestando ateno na msica.

 ...Voc me diz que seus pais no lhe entendem/ Mas voc no entende seus pais...

 Msica bonita.  eu disse a ele quando se sentou ao meu lado.

 Douglas sorriu.

 Miriam foi para o palco cantar.

 No vai me contar o que houve com seus pais mesmo?-- disse Douglas brincando
com uma mechinha do meu cabelo.

 Olhei para ele por um momento. Como ele podia estar to ligado a mim em to
pouco tempo?

 Tentei fazer alguma piadinha para no ficar um clima ruim.

Talvez v se livrar de mim para sempre.  Minha voz no deixava negar que eu
estava triste com isso  Meus pais querem me levar para o sul do pas.

 Ele me olhava com tristeza.

  Mas por qu?...  Nesse instante olhamos juntos para Miriam.

 ...Voc sabe que o amo/ Ento eu te amo o suficiente para deix-lo ir.

 Eu no queria dizer adeus a ele nem s minhas amigas.

 Vou ao banheiro.  falei levantando-me. Mas ele segurou minha mo.

  No, no.  sua vez de cantar.

  Eu no canto bem.  arrisquei.

 Fala srio, Carol, voc canta bem sim.  Miriam disse ao meu lado e me empurrou
de leve para o palco.

 Peguei o microfone meio desajeitada e procurei uma msica interessante.

 Olhei para eles e sorri quando escolhi I'm with you, da Avril Lavigne.
       33
-Continuao a partir da perspectiva de Douglas-


                                   7 captulo
 A voz dela era doce. Delicada. Angelical! Eu no sei quanto tempo mais posso
agentar ficar ao seu lado sem dizer o que realmente sinto. Toda vez que eu a olho
me apaixono mais. Sinto-me no dever de cuidar dela, no quero v-la triste nem mais
um segundo.

  ...Estou tentando decifrar esta vida/ Voc no vai tentar me pegar pela mo/ E me
levar a algum lugar novo?...

 Carolina estava com os olhos molhados. Essa no!, pensei eu.

 Quando ela terminou a msica desceu do palco enxugando algumas lgrimas.

  Voc est bem, Carol?-- perguntou Miriam aflita.

  Estou.  respondeu ela.

 Miriam a abraou e fomos embora.



 Cheguei s 10. Fui jogando casaco, carteira e outras coisas pela casa at chegar ao
meu quarto.

 Amanh eu arrumo tudo, disse a mim mesmo.

 A msica que a Miriam cantou no queria sair da minha cabea de jeito nenhum.

 No a amo o suficiente?  perguntei ao nada em voz alta.  Eu no a deixaria ir
embora, mesmo que nunca revele que estou apaixonado por ela.

 Sentei-me numa poltrona de frente para a janela do meu quarto.

 Oh, Deus me... -- me interrompi no meio da frase.  Meu amigo.  isso! 
Levantei-me e fui ao escritrio.



  Acordei cedo no domingo para arrumar meu apartamento. Era um duplex comprado
com a ajuda do meu tio. Ele cuida de mim desde que meus pais morreram quando eu
tinha 13 anos, isso aconteceu 10 anos atrs. Agora eu trabalho para ele na empresa
de jardinagem. Sou muito grato ao meu tio. Ele me trata como um filho.

  Tirei a minha camisa azul marinho que estava usando ontem de debaixo da mesa de
jantar.

  Como isso foi parar aqui?



         34
 Quando terminei a faxina olhei para a janela e, por estar um lindo dia, decidi fazer
caminhada. Fazia um tempinho que eu havia parado de fazer academia, precisava me
exercitar.

 Tomei caf da manh e me arrumei com algo bsico, bermuda preta e blusa regata
branca. Peguei meu mp3 e coloquei no bolso da blusa.

 Fui para a pracinha que eu e Carol passeamos um dia depois de um jantar, e dei trs
voltas por l. Depois me sentei encostado numa rvore e liguei o mp3.

 Apesar de entediado, eu estava me sentindo feliz. No completamente, feliz em
partes. Eu e meu amigo estvamos nos reconciliando.

 Sorri.

  Depois de 10 anos e todas as coisas que eu aprontei, ele, ainda assim, estava me
perdoando.  maravilhoso ter com quem contar, poder compartilhar os segredos mais
ntimos, momentos de alegria e momentos no to bons assim, receber conselhos e
puxes de orelha.

  Meu melhor amigo.  eu disse em voz alta.

 Havia algum parado na minha frente. Pelo sapato lils deveria ser uma garota. A
msica que eu fingia ouvir estava alta, mas no o suficiente para que cobrisse a voz
doce e agradvel da minha Carolina.

 Levantei o rosto e ela sorriu para mim. Seus cabelos longos e escuros balanavam
com a leve brisa. Perfeita!

  Bom dia.  repetiu.

 Pisquei algumas vezes e tirei o fone dos ouvidos.

  Oi, Carol, como vai?  Sorri para ela.

 Muito bem, e voc?  disse num tom infantil sentando-se ao meu lado.

  Maravilhosamente bem.  respondi animado.

  Hmm... o que aconteceu de to bom?

 Vasculhei algo em minha mente, como no tinha nada...

  Fiz faxina no meu apartamento hoje.  Ento ela riu.

 Aquilo fez meu corao disparar. Ela gosta de mim, diverte-se quando estou com ela,
mas no d para saber se  amor. Que tortura!

  Em que est pensando?  perguntou baixinho para mim.

  Torta de morango com chantilly.  falei sem pensar.



         35
 Ela abriu um sorriso lindo. Eu s pude morder o canto do lbio para me conter. Minha
vontade de revelar o que sinto estava quase me vencendo.

  Ficamos durante um bom tempo sem dizer nada, s olhando a linda paisagem de
primavera. A grama estava verdinha e estranhamente macia, as rvores com seus
emaranhados de galhos permitiam que vrios pssaros se abrigassem nela, o som da
gua do lago servia como um remdio relaxante. O brao de Carolina estava
encostado no meu, e como ela parecia um pouco inquieta, o roar de seu brao,
fazendo-me uma espcie de carinho, deixou-me com sono.

 Ela cutucou meu ombro quando minhas plpebras caram cansadas.

  No  hora de dormir.  disse ela num sussurro divertido.

  No estou dormindo.  respondi preguioso.

 Senti que ela sorria. Ento de repente seus braos me envolviam e meu rosto se
encontrava no espao entre seu pescoo e seu ombro. Ela cantava uma msica de
ninar e eu me esforava para no cair em sono profundo. Sua mo esquerda chegou
ao meu rosto e temi pelo pior. Algum me ajude!, pensei.

 Carolina comeou a fazer carinho em minha bochecha e meus olhos ardiam
querendo fechar. Quando pensei que ela havia se cansado seus dedos comearam a
se enroscar em meus cabelos, minhas esperanas de permanecer acordado quase
acabaram, mas uma fora interior mandou um recado a meu crebro fazendo minha
mo agir. Usei toda a energia que restava em meu corpo e segurei a mo dela. A
msica parou instantaneamente.

 Se eu dormir, nem um guindaste me tira daqui.  falei a ela quando tentava
levantar meu rosto.

 Ela riu.

 Endireitei meu corpo e vi que ela olhava o relgio.

  Que horas?  perguntei.

  10 para o meio dia. O tempo passou muito rpido.

   mesmo. Quer almoar comigo hoje?  disse sorrindo.

 Eu adoraria!-- Carol se levantou rapidamente. Levantei-me apoiando na rvore,
ainda com sono.

 Fomos andando para o restaurante.

  Consegue comer com a mo esquerda?  perguntei.

  Na verdade no muito bem.  disse constrangida.

 Sorri para ela e segurei sua mo.


         36
 Eu te ajudo, pode deixar.  Ento ela deu um sorriso meigo e eu me derreti todo.



 Sentamo-nos num lugar mais reservado. Brincamos e conversamos mais do que
comemos. Ela tentava me ensinar a usar o garfo com a mo direita e eu a ensinava
usar a mo esquerda.

 Espetei um pedacinho de frango  milanesa com o garfo e estiquei o brao para dar
a comida na boca dela.

  Olha o aviozinho...  eu disse sorrindo.

 Carol sorriu para mim depois comeu.

  Voc  o melhor amigo do mundo!  disse depois.

 Talvez eu seja o 2 melhor amigo do mundo, preciso te apresentar o 1.




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                                 8 captulo
 O que vai fazer hoje  noite?  Carol me perguntou enquanto dirigia. Ela estava me
levando em casa.

  Vou  casa do meu melhor amigo.  respondi distrado.

  Aquele de 10 anos atrs?

  Sim.

 Ela me avaliou.

  Ele mora nesta cidade?

 Pensei um pouco antes de responder. Eu queria apresent-la a ele quando as coisas
estivessem bem resolvidas.

  Ele... mora aqui, mas tambm em outros lugares.

  Um nmade?  Ela disse rindo.

  Talvez.  limitei-me a responder.

  Entendo.

 Ela parou o carro em frente ao meu prdio. Eu j ia saindo quando ela disse:

  Quando nos veremos de novo?  Parecia ansiosa.

  Quando quiser.

 Ela pressionou os lbios formando uma linha.

  Vai voltar tarde da casa do seu amigo?

 Sorri para ela.

 No mximo... s 9h30 da noite estarei em casa.  tarde para voc?

  No, de forma alguma...  eu a interrompi.

  Sei at onde posso lev-la.

  Onde?

  Segredo!  Inclinei-me para ela e dei um beijo em sua testa.

  Voc anda muito misterioso.

 Ri baixinho e sa do carro.




          38
s 19h10 eu peguei o livro que estava no criado-mudo e fui para a casa de meu
amigo no centro da cidade. L eu revi alguns colegas de infncia, amigos dos meus
pais, professores...

 Voltei para casa muito feliz. Agora eu tinha as respostas de que precisava para
continuar vivendo e outras para superar meus medos.

 Coloquei uma roupa menos formal e fui para o escritrio. Se no consigo falar para
ela, posso escrever para ela. Peguei um bloco de papel, um lpis e me pus a
escrever.

 10 minutos depois a lixeira estava transbordando.

 Droga! Parecia to fcil. Dori, me d uma idia!  pedi a minha peixa.

 O telefone tocou, levantei o rosto da mesa e desgrudei um papel da minha bochecha.

  Al?  eu disse.

  A gente ainda vai sair hoje?

  Aham, eu s... estou tentando escrever um bilhete.

  Hmm... certo. Quer que eu te busque ou voc vem aqui?

  Eu passo a.

  T.

 Desligamos.

  Escrevi tudo que veio em minha mente. Coloquei o bilhete a lpis mesmo no bolso e
fui para a casa dela.



 Esperei um pouco at que ela abriu a porta e me surpreendeu.

 Como consegue ficar mais linda a cada dia?  perguntei. Ela sorriu e trancou a
porta.  Como vai o Pepino?

 Est cada vez maior e bagunceiro.  Fomos andando at minha moto.  Aonde
iremos?

  Hmmm... ser que eu conto agora?  Fiz charminho.

  Conta, conta. Por favor.

  Vamos ao meu jardim secreto.

  Eu a levei para o terrao da casa do meu tio. Era um lugar coberto, com enormes
vidraas e com flores de todos os tipos, cores e tamanhos que estavam espalhadas.

 Que lugar magnfico!  disse Carolina andando em meio s flores.
       39
 Peguei-a pela mo e levei-a para a janela principal onde havia uma espcie de div
com tecido vinho. Sentamo-nos l e ficamos apreciando a vista. Dava pra ver o centro
da cidade praticamente inteiro.

  A sensao que eu tinha era que tudo havia parado, como se nada mais existisse,
tudo havia desaparecido, todos os problemas e medos... S existamos eu e ela.

  No vai falar nada?  perguntou Carolina.

 Ainda no.  respondi remexendo os bolsos. Ela me olhou curiosa. Toma. Tirei o
bilhete todo amassado do bolso e entreguei a ela.  No leia agora. Ela olhou o
bilhete por um momento.  Por favor!  Carol colocou o papel no bolso da cala jeans.

  O que aconteceu l na casa do seu amigo?

  Ele... me ensinou algumas coisas sobre a vida...

  O que? Me conte!-- Ela estava animada.

 Hmm... Temos que amar e valorizar as pessoas. Respeitar os mais velhos. Fazer o
bem s pessoas mesmo que elas no faam o mesmo a voc...

  Ele  um tipo de sbio?

  De certa forma sim.

  E como ele ? Vai me apresentar um dia?

 Ergui uma sobrancelha.

  T ficando interessada...

 Ela comeou a rir.

 Ele  o senhor mais legal, inteligente, divertido, amigo, e milhes de outras coisas,
do mundo.

  Por acaso ele  seu av?

 Eu ri um pouquinho.

  No. Ele  meu Pai.




            40
                                  9 captulo
 Ela ficou me olhando, confusa.

  Mas seu pai no havia morrido?

  Sim, ele morreu.

 Ento! Como esse amigo pode ser o seu pai? Por acaso  seu tio, pai de criao?

 Olhei para o cu e suspirei.

  No est no caminho certo. Tambm no me refiro a meu tio.

 Ento me explique quem  esse amigo-pai?  Ela sentou virada para mim.

 Pronta para ouvir uma historinha?  Ela fez que sim com a cabea.  Pois bem. Eu
nasci num lar evanglico, sou filho nico e meus pais eram tudo para mim. Quando eu
tinha 13 anos eles sofreram um acidente de carro e faleceram. Eu perdi o rumo. Minha
vida havia acabado eu no entendia por que aquilo tinha acontecido. Meus pais eram
maravilhosos, no podiam ter morrido daquele jeito. Minha f em Deus perdeu o
sentido, eu o culpava por ter tirado meus pais de mim. H 10 anos eu vivia como se
Deus no se importasse comigo. Mas num dado dia eu conheci a minha melhor amiga
e Deus me incomodou para que eu voltasse a ser amigo Dele. Assim eu poderia
ajud-la com a famlia. Mas eu fiquei com receio no comeo, e s agora voltei a ser de
fato filho Dele.

  Ento seu amigo  Deus...?

  Exatamente.  eu disse sorrindo.

  Mas onde ele mora?

 No corao de todos aqueles que O aceitam como nico e verdadeiro Deus.

  Mas hoje voc disse que foi a casa Dele...

  Fui  igreja.

 Ela ficou pensativa por um momento.

  Como conseguiu perdo-Lo por ter levado seus pais?

 A culpa no  Dele. Cada um tem o seu tempo aqui na Terra, estamos aqui s de
passagem. Deus tem um propsito em tudo.

 E como Ele foi capaz de perdoar voc por t-Lo ignorado todo esse tempo?

 Deus  amor. Ele nos perdoa quando estamos realmente arrependidos e nos faz
filhos e amigos Dele de novo.

 Voc acha que meus pais me perdoariam?  perguntou ela baixinho.

          41
  Pea para Deus tocar no corao deles.

  Eu no tenho muita moral com Deus.  Ela se encolheu.

  E por que no?

  No convm dizer agora.

  Mas voc se arrepende de ter feito coisas erradas?

  Sim, me arrependo muito!

 Dei um sorriso para ela e peguei sua mo.

  Vamos orar ento. Repita o que eu digo em sua mente, t?

 T.

 Fechei meus olhos.

 Senhor meu Deus, obrigado por mais um dia que nos presenteou. Obrigado pelo
ar, pelo sol, pelo almoo maravilhoso que comemos.  Ela riu um pouquinho.  Pela
noite agradvel, pela vida da minha amiga, pelo privilgio que temos em poder cham-
Lo de nosso Pai-amigo, por estar sempre conosco, por nos ouvir e responder nossas
oraes. Sabemos que somos falhos, Deus, por isso venho te pedir perdo pelos
nossos atos. Nos ajude a viver em seus caminhos, Pai, habite em nossos coraes.
Obrigado porque temos a certeza de que o Senhor nos ama e nunca nos abandonar.
Essas bnos te peo e te agradeo, em nome de Jesus. Amm.

 Quando terminei a orao ela estava chorando.

 Nunca  tarde de mais para encontrar o perdo de Deus.  eu disse abraando-a.
 Jesus te ama Carol... e eu tambm.--disse baixinho em seu ouvido.




        42
-Continuao a partir da perspectiva de Carolina-


                                  10 captulo
  Senti que o vazio que havia em meu corao estava aos poucos sendo preenchido.
Como pude ser to distrada? A resposta estava to na cara... Deus, a soluo para
todos os meus problemas.

 Por que no me disse antes, Douglas?  Eu estava encostada em seu ombro.

 Ele sorriu.

  Eu estava escolhendo a melhor hora.

 Ah.  Olhei o relgio.  Est tarde, amanh dou aula cedo.

  Ok!  Levantamo-nos e ele me levou para casa.

  Eu estava me sentindo to bem, to leve que quase acordei Pepino para contar a ele
as novidades. Fui para o meu quarto me arrumar para dormir, quando tirei a cala o
bilhete que Douglas tinha me entregado caiu no cho. Quando o peguei o telefone
tocou no meu escritrio e eu sa correndo para atender.

  Al?  falei contente.

 Oi, filha.  Era minha me. Amar e valorizar as pessoas lembrei.

 Ol mame, como vai? O papai est bem?  perguntei de maneira agradvel.

 Ela ficou em silncio por um instante.

 Estamos bem, filha. E voc, como est?  disse ela vagarosamente.

 Estou maravilhosamente bem, mame.  Estava quase rindo, inexplicavelmente
feliz.

  O que houve? Voc est diferente.

  Encontrei meu melhor amigo, me.

  Ah...

  O que queria falar comigo?

 Conseguimos fazer negcio com a casa. Nos mudaremos daqui um ms e meio ou
menos para o sul.

 Fiquei pensando por um minuto inteiro.

  Voc  feliz, me?  eu disse por fim.

  Como  que ?

        43
 Eu ri um pouco.

  Perguntei se voc /est feliz.

  Sim, por que no seria?  perguntou-me seca.

  Nada, nada no... E por que eu tenho que ir junto?

  J conversamos sobre isso, Carolina.

  Aquilo no foi uma conversa.  tentei.

  Aonde quer chegar, mocinha?

  Ao meu livre-arbtrio talvez...

  Certo. Vamos conversar ento.

  Quero que me diga os motivos pelos quais eu devo ir.

 Ela pensou um pouco.

 1: voc  minha filha, faz o que eu mando. 2: l voc ficar perto de sua famlia.
3: vai ter melhores oportunidades de emprego.

  Posso?

  Fala.

 1: J moro sozinha h muito tempo, sou maior de idade e sei me cuidar... 
Samantha me interrompeu.

  Mas...

 Nunca interrompa uma pessoa quando ela estiver falando. -- ela riu um pouco. Eu
continuei --2: tenho uma famlia aqui tambm e eles precisam de mim. 3: eu AMO o
meu emprego, o dinheiro que ganho  o suficiente para eu viver bem.

  Entendo...

  Quer dizer que posso ficar?

  Eu no disse nada disso.

  Mas me...  choraminguei.

 Vou conversar com seu pai, mas voc no me convenceu totalmente.  Ela parecia
triste  Sabe, filha, ns a tivemos conosco to pouco. Nunca ficamos to prximos...

  Eu sei.

 Pensamos em morar em outro lugar porque nos sentimos muito ss, e queremos
que v conosco para que possamos cuidar de voc, coisa que no tivemos tempo de
fazer.  De certa forma ela tinha razo, isso me fez ficar angustiada.  Eu me lembro
           44
de quando estava grvida de voc, eu fazia vrios planos, at aprendi a costurar para
fazer bonecas... Mas voc ficou to distante, eu e seu pai no sabamos o que fazer,
filha.

  Eu te amo, mame.  Ela estava chorando.

 Pense bem filha, famlia voc s ganha uma vez na vida.  disse ela quando se
recomps.

  Vou pensar.

  Desligamos o telefone e voltei para o meu quarto. Minha me estava certa, eu tenho
que me aproximar mais de meus familiares. Seria uma oportunidade para eu mudar de
vida. Agora eu me sentia no dever de voltar para casa`, minha famlia precisava de
mim. Eu no devia ser to independente como sempre procurei ser, eu precisava
deles. E eles precisavam de mim.

 Coloquei o pijama e fui para o banheiro escovar os dentes. Ainda estava escovando
quando me lembrei do bilhete. Fui ao escritrio, peguei o papel e voltei para ler no
banheiro.

 Carol,

 Eu queria ter coragem para dizer isso pessoalmente, mas infelizmente
no tenho, por isso decidi te entregar esse bilhete.

 Quando estou com voc sinto meu corao acelerar, minhas mos
tremem e s vezes soam, sinto tambm uma felicidade imensa algo que
com palavras eu no saberia expressar. Eu acho tenho certeza que isso 
amor, porque esse sentimento a gente s sente quando tem algum
realmente especial conosco, e voc  a pessoa mais especial do mundo para
mim.

 Tenho medo de que voc no sinta o mesmo, no quero que nossa
amizade acabe. J no sei mais o que escrever s me resta dizer...

 Eu amo voc!

 Douglas.




         45
                                 11 captulo
 Enquanto os meus alunos pintavam, chamei Miriam para conversar e contei a ela
sobre a conversa que tive com a minha me.

  Leia.  Entreguei o bilhete de Douglas.

 Ela lia enquanto sua boca se escancarava.

  Que lindo, amiga!  ela disse quando terminou.

  O que eu fao?

 Ela me olhou incrdula.

  O que qualquer uma faria em seu lugar: case-se com ele!

 Comecei a rir mais de nervoso do que de ter achado graa.

  Para voc  fcil falar, no vai mudar de cidade.

  Pensa mesmo em ir?  disse ela baixinho.

  Acho que no tenho escolha, me desculpe.

 Ela deu um sorriso com o canto da boca.

  No importa para onde voc v, s quero que seja feliz.

 Eu a abracei.

 Seria egosmo ter tudo ao mesmo tempo?

 No se esquea de falar com o Douglas... Alis, o que pensa em dizer a ele?

 Se minha pele fosse mais clara Miriam veria o quanto fiquei vermelha ao ouvir isso.

  Eu... no sei.

 Voc o ama?  ela disse afastando-se de mim para olhar em meus olhos.

 Comecei a gaguejar.

  V-voc sabe n?! Somos a-amigos h um tempo...

  No enrola!

 T bom, t bom. Eu estou perdidamente apaixonada por ele! Satisfeita?  eu disse
tropeando nas palavras e abanando as mos de nervoso.

 Seus olhos brilharam e ela abriu um enorme sorriso. Pensei em sair correndo.

  Minha menininha est crescendo!  disse me sacudindo.

              46
  No exagera.  falei rabugenta.

 J sei, combinem de lanchar  tarde. A Christine trabalha em uma lanchonete no
centro da cidade, j comi l,  bom.

  Por que no posso falar com ele por telefone?

 Ela me olhou feio.

 De qualquer forma vou ter que telefonar para Douglas.  eu disse. Ento ela pegou
o telefone e me entregou, encostou-se na parede a minha frente e cruzou os braos.

  No demore.  ordenou.

 Eu estava to nervosa, minhas mos tremiam. Disquei o nmero, j sabia de cor.
Chamou duas vezes at que uma voz gostosa de ouvir atendeu.

  Al?

 Oi, Douglas.  Eu olhei para Miriam.   a Carolina, como vai?

  Oi.  Ele hesitou. -- hm, estou bem Carol, e voc?

  tima. Vai fazer alguma coisa hoje  tarde?

  Vou trabalhar at as 15h. Por qu?

 Por nada no.  falei. Ento Miriam gritou comigo, ele deve ter ouvido porque
comeou a rir.

  Aonde quer ir?  perguntou.

  Numa lanchonete no centro.

  T bom. Que tal s 15h30?

 Aham, pode ser. Podemos nos encontrar l,  melhor.  Dei o endereo e
desligamos.

 Miriam estava dando pulinhos.

  Tenho que dar aula. Adios.  Sa correndo para o ateli.

                                          ...

 Quando queremos uma coisa, acontece justamente o contrrio. Meu desejo era de
que as horas passassem o mais devagar possvel, eu precisava pensar no que dizer a
ele, mas quando olhei no relgio quase tive um infarto. Eram 14h40 e eu nem estava
arrumada. Pior, no fazia ideia do que vestir.

 Desliguei a TV e fui voando para o quarto. Desarrumei tudo para encontrar algo que
eu nem sabia que estava procurando. Pepino fazia a festa nas minhas roupas


        47
espalhadas pelo cho e pegou justamente minha bermuda quadriculada cinza
preferida.

  Largaaa!  Eu guerreava com ele.

 Depois de minutos de puro sofrimento eu consegui o que queria: uma saia xadrez,
uma blusa branca, uma sapatilha e um cordo com um pingente de estrela.



  Desculpe o atraso.  eu disse tomando flego.

  Tudo bem, cheguei agora.

 Quando entramos logo reconheci a garonete, era minha aluna Christine. Acenei
para ela e fui me sentar junto com Douglas.

 Era uma situao bastante desconcertante. Nenhum de ns estava disposto a puxar
assunto.

 Primeiro as damas...?

 Nossos pedidos haviam chegado, mas talvez fosse melhor conversarmos primeiro.

  Tem uma caneta?  perguntei a ele, tentei parecer distrada.

  Hmm... no. Quer que eu pea uma  atendente?

 Acenei com a cabea.

 Ele se levantou e foi para o balco.

  Pensa, pensa...  falei baixo.

 Ento peguei vrios guardanapos e coloquei perto de mim. Douglas chegou com a
caneta e me entregou. Ele pegou o lanche e comeou a comer.

 No est com fome?  perguntou depois, mexendo o canudinho no suco.

 Daqui a pouco eu como.  respondi j escrevendo nos guardanapos.

 Quando terminei de escrever pedi que ele prestasse ateno em mim e levantei os
guardanapos que ele ia lendo em voz alta.

 1- me desculpe, eu tambm sou tmida; 2- adorei o seu bilhete; 3- muito obrigada
por ter me apresentado seu amigo; 4- voc  o melhor presente que ganhei de Deus. 
Ele sorriu.  5- eu gostaria de ficar com voc para sempre; 6- mas meus pais precisam
de mim;  Ele agora lia mais baixo. 7- eu s queria dizer que...  Eu virei o 7
guardanapo.  Fiquei sem guardanapos para escrever o resto, ento.  Lia com
dificuldade porque eu diminu a letra.  vou ter que falar mesmo.

 Ele olhou para mim quando terminou de ler.


         48
   que... Eu te amo muito Douglas.

 Seu rosto ficou bastante vermelho e eu quase no ouvi o que ele falou, tamanho era
o barulho do meu batimento cardaco.

 Foi a melhor coisa que j ouvi em toda a minha vida.  disse-me.

 Fiquei feliz por um instante, mas depois lembrei que aquilo no era um comeo e sim
um fim.

  Olhei para ele, o rubor de seu rosto estava passando. Eu no o veria mais. Tentei
memorizar a cor clara de sua pele, as leves ondas de seu cabelo liso de corte
repicado, seus olhos escuros um pouco puxados, seu nariz perfeito com a pontinha
arrebitada, seus lbios irresistveis, sua voz suave e divina... Estaria eu abrindo mo
do paraso para enfrentar o desconhecido?

  Eu... no sei mais o que ser de mim.  sussurrei.

 No sei o que ser de mim sem voc.  disse ele segurando minha mo.  Por que
tem de ir justamente agora que te encontrei?

  Conseguiram vender a casa.

  Podia passar mais um tempo aqui at acharmos uma soluo.

  Acho que j passei tempo demais longe deles.

 Ele soltou minha mo para deixar que limpassem a mesa direito. O garom levou
meu lanche e o embrulhou para viagem.

 Samos da lanchonete e fomos andando para nossa pracinha. Sentamo-nos num
banquinho sem ter nada para dizer.

 Eu estava literalmente sem sada.

 Deus, me ajude!




           49
                                12 captulo
 Voltamos para nossas casas e combinamos de mais tarde andar de bicicleta.

 Soltei Pepino no quintal e me sentei na mureta da varanda.

 Preciso de uma soluo menos dolorosa.  falei para mim mesma. Fiquei olhando
para o cu azul, talvez assim eu achasse a resposta.

 Se o sul no fosse to longe... se meus pais mudassem de ideia... se Douglas,
Miriam, Raquel e Pepino fossem embora comigo... Improvvel!

  Propsito de Deus?  falei em voz alta.

 Pepino voltou para casa. Brinquei com ele e o arrumei para sair.

   J eram 17h10 horas quando fui para a garagem pegar a bicicleta. Coloquei meu
filho na cestinha e fomos para o Parque. Era um lugar enorme, com grandes rvores,
lagos e colinas. Havia tambm lojinhas que vendiam porcelana, mel e ervas.

 Douglas chegou ao mesmo tempo em que eu. Coloquei Pepino no cho, ele iria pular
de to agitado que estava no cesto.

 Miriam me disse que seu aniversrio  sexta que vem, vai querer o que de
presente?  disse ele sorrindo enquanto pedalvamos.

 Deixe-me ver... ah, um submarino, uma passagem para Grcia, uma Ferrari, ...
hmmm, coisas do tipo.  eu disse rindo.

  Tudo muito barato.

  Claro, claro.  Ns rimos.

 Ele me levou a uma colina. Sentamo-nos na grama embaixo de uma rvore. O sol
estava se pondo.

 Lindo!  ouvi-o dizer baixinho. Ele assistia ao espetculo da natureza que acontece
todos os dias, mas que dificilmente paramos para prestigiar.

 Eu queria aproveitar cada segundo do meu tempo at o dia em que eu tivesse de
partir da minha cidadezinha.

  Os raios de sol chegaram at ns. O rosto de Douglas adquiriu um brilho celestial,
talvez fosse a ltima vez que eu veria aquilo.

 Ele virou para me olhar.

 Pra de olhar para mim, olhe para ele.  Apontou para o sol e deu risada.

 Foi a coisa mais majestosa que j vi! O cu estava rosa misturado com vermelho e
um pouco de amarelo, o sol estava lentamente se escondendo atrs de uma
montanha enorme.
           50
 Deus  o Ser mais criativo que eu conheo!  falei  Ser que o jardim do den era
to bonito quanto esse lugar em que estamos?

  Sem dvida!

 Ficamos olhando aquela paisagem por um tempo.

  J pensou em alguma soluo?  perguntou ele depois.

  Nada que preste. E voc?

 Bom... podemos falsificar passaportes e nos mudar para o norte da frica.  ele
falou srio, eu comecei a rir.

 Ele ficou me observando e depois passou o brao em volta de meus ombros.

 Voc no existe, Douglas.  comentei me acomodando em seu abrao.

 Tem razo, sou apenas seu amigo imaginrio.  respondeu. Olhei para ele, sorriu
para mim.

  Ah, amigo imaginrio no... meu anjinho,  melhor.  Sorri.

 Ele ficou me olhando.

  Anjos no amam.  disse-me baixinho.

 Fiquei sem ter o que dizer.

 O momento era to mgico. Naquele lugar perfeito s havia eu e ele. A brisa
geladinha e o calor do abrao dele era o equilbrio perfeito daquele instante.

  Seu rosto se aproximava do meu, j no conseguia contar meus batimentos, dava
para ouvir a respirao dele. Tambm me aproximei o bastante para sentir seus lbios
roarem sobre os meus.

 Hesitei.

 No seria dar esperanas demais?

 Pepino roncou perto de ns e nos desconcentrou. Afastamos nossos rostos.

  Me desculpe.  ele disse.

  Tudo bem.  eu disse sem graa, depois mordi o canto da boca.

 Olhei para o relgio em meu pulso.

  Est tarde,  melhor irmos embora.  disse.

  Ok!  Douglas se levantou e me ajudou a levantar tambm.




          51
 A semana passou rpido demais, eu mal acordava e j estava na hora de dormir.
Exagerei! Todo mundo estava ocupado em organizar minha festa de aniversrio
surpresa. No era surpresa mais porque eu havia descoberto segunda-feira, meu pai
no conseguiu guardar segredo. Miriam conseguiu convenc-los a virem  festa. Seria
a primeira vez que eles viriam  minha pequena Nil.

 Estou to animada! Quem sabe assim meus pais mudam de ideia...  eu disse a
Douglas enquanto comamos bolo de chocolate com cenoura na cozinha de minha
casa.

 Verdade.  disse ele.  Ah, voc at hoje no falou o que quer de presente...

  Hmm... que tal uma tartaruga?

 Ele me olhou feio.

  Uma flor?  Apoiei meus cotovelos na mesa e meu rosto nas mos.

 Suas sobrancelhas se uniram.

  O boneco do Batman?

 Ele bateu a mo na testa.

  Que ? Eu sempre quis ter um!

 Douglas riu.

 Nunca vou achar algo para dar a voc...  falou apertando de leve meu queixo.

 No precisa me dar nada, sua presena  o bastante.  Sorri para ele.

  Vou pensar em algo melhor.

 Terminamos de comer. Eu fui lavar os pratos, ele os enxugava e empilhava na
bancada para eu guardar depois.

 J est pronto.  gritou Raquel da sala. Ela e Miriam estavam conectando os cabos
do vdeo game na televiso.

   Eu e Douglas terminamos de arrumar a cozinha e fomos para a sala. Havia dois
pufs-gota no meio do cmodo e um console em cada um. Estvamos fazendo um
campeonato de vdeo game, o vencedor ganharia o que quisesse e o ltimo colocado
iria dar banho no Pepino.

 Tiramos no palitinho para ver a ordem dos jogadores, deu: 1 Mriam, 2 eu, 3
Raquel e 4 Douglas. Decidimos que seria um jogo de corrida.

 Que vena a melhor.  disse Miriam dando-me tapinhas nas costas.

 Sentamo-nos e comeamos a jogar.



          52
 Acho que os latidos de Pepino significavam gargalhadas. Douglas e Raquel estavam
se acabando de rir, pois nem eu e muito menos Miriam conseguamos manter o carro
na pista. A situao piorou quando apareceram poas de graxa no caminho.

 Ela estava em minha frente desde o incio, mas por ter atropelado uma tartaruga de
cadeira de rodas eu tomei a dianteira e venci a prova.

  Foram muito bem!  disse Raquel rindo ao se sentar no puf.

  Que tipo de corrida quer?  falou Douglas a ela.

 Raquel levantou um CD como algum que ergue um prmio.

 Este!  respondeu. Era um jogo de corrida que voc podia escolher se ia jogar de
patins, skate, bicicleta ou patinete.

 Ela colocou o CD e sentou-se novamente. Olhou para Douglas com um ar desafiador
e apertou START.

 Eu e Miriam estvamos sentadas no sof atrs deles e Pepino corria de um lado
para o outro latindo e pulando em ns de vez em quando.

 Raquel escolheu patins e Douglas uma bicicleta. Os dois jogavam bastante srios e
concentrados, mal piscavam. Por fim Raquel venceu, no s este jogo mas todos os
outros. Em 2 lugar ficou Douglas, em 3 eu e 4 Miriam. Propus-me a ajud-la com o
banho do meu filho e ela aceitou. Eu sabia o quanto ele detestava tomar banho.
Marcamos para sbado, que seria depois de amanh.

 E ento, Raquel, o que vai querer como prmio?  perguntei enquanto arrumava a
sala junto com os outros.

  Hmmm... Ainda no sei.

 Terminamos de arrumar e me despedi dos meus amigos.

  melhor eu dormir cedo, amanh vai ser um longo dia.  falei a mim mesma
enquanto subia as escadas sendo seguida pelo meu cozinho.

                                           ...

  Al?--perguntei sonolenta.

  FELIZ ANIVERSRIO!!!  meu pai e minha me falaram juntos.

  Obrigada.  disse sorrindo.

 Que voc seja muito feliz, aproveite muito a vida, tenha muita paz, sade e amor.

  Obrigada, papai.

 Filha.  disse minha me.  Desejo a voc tudo de bom, muito sucesso e todas as
coisas que seu pai desejou a voc agora a pouco.  Ela riu.  Outra coisa, quero que
voc se case logo.  Mame estava sria agora.  Eu e seu pai queremos um neto!
         53
 Quase ca para trs.

  Nem namorado eu tenho.  resmunguei. E ela riu.

 Te dou a permisso para namorar agora, 24 anos j  idade para essas coisas. 
disse ela. Agora foi a minha vez de rir.

  No sei, mame...

  Ah, seu pai t dando tchau, est com muito sono.

 D boa noite a ele por mim.  falei. Ouvi a voz dela um pouco longe do bocal do
telefone passando minha mensagem ao meu pai.

 E por que no sabe, filha? No h nenhum rapaz interessante na sua cidade?

 Epa, pensei.

  Bom...

  No me enrola!

 Tem sim.  eu disse baixinho, e fiquei surpresa pela reao dela.

  Me conte, me conte quem ?  ela estava muito animada.

  Ai, mame... quer mesmo saber?

  Quero, claro! No! Espere.

  H?

 Ele no  daqueles que andam todo de preto nem usa tatuagens, n?

 Dei gargalhadas com a preocupao de minha me.

  No, no tm nada a ver com ele essas coisas.

  timo.  Ela suspirou aliviada.  Como ele ?

  Detalhes?

  Todos!

 Eu e minha me ficamos durante uma hora conversando pelo telefone. Foi a
conversa mais longa que tivemos at hoje.

  At amanh, mame. Te amo!

  At, filha e... Eu tambm te amo.

 Desligamos.

 Estava cada vez mais fcil expressar meus sentimentos, at por quem eu mal
conhecia estava acontecendo isso, eu sentia uma vontade estranha de abra-los e
     54
dizer a alegria que sinto ao v-los. Nesta semana, por exemplo, abracei um senhor
que  encarregado de entregar as cartas no meu bairro, ele me deu um sorriso muito
bonito em agradecimento, aquilo me fez bem.

 Al?  J era o quarto telefonema que eu recebia naquela madrugada e eu nem
havia dormido ainda.

 At que enfim, Carol. Toda vez que eu telefonava dava ocupado.  disse o rapaz
que possui a voz mais linda do mundo.

  Oi, Douglas, tudo bom?-- perguntei sorrindo.

  Tudo timo. E com voc? Quer dizer... Feliz aniversrio!

  Muito obrigada.

 Que Deus possa te abenoar grandemente, que Ele te d muitos anos de vida,
carinho, pacincia, sade, paz, felicidade... Que voc no se desvie dos caminhos
Dele, pois Ele  fonte de vida eterna.

  Obrigada mais uma vez, melhor amigo.

  Nada.  disse ele num tom infantil.  No est com sono?

  Um pouquinho s.

 Ento  melhor eu desligar, voc precisa estar bem disposta hoje.

  Aaah... Eu quero ficar conversando com voc.

 Ele riu.

 T, mas s um pouco. Bom... Como  ter 24 anos?  disse-me de forma divertida.

  Ainda no me acostumei.

  Vai ter muito mais responsabilidades, eu acho.

  Pois . Uma delas  arranjar um bom partido para me casar.

  Xii...

 Foi um pedido da minha me.  eu disse pegando algo para beber na geladeira.

 Posso me candidatar a essa vaga, se quiser.  ele usou uma voz de gal de novela
mexicana para falar.

  Faria isso por mim?  falei teatralmente emocionada.

 Claro,  para isso que servem os amigos. Deu uma risada engraada.

 Sentei-me numa cadeira e bebi um pouco de suco de graviola. De certa forma eu
queria que ele estivesse falando srio.

         55
  Carol?

  Oi.

  Pensei que estivesse dormindo.

  No, no, s estava pensando.

  Em qu?

 Deixe de ser curioso  falei e ele riu. ,  coisa de mulher, no posso falar.

 Eu sempre quis saber sobre o que as mulheres pensam. Ah... Me conta, vai?!

  Hmm... quem sabe outra hora...

  E quando vai ser essa hora?

  Quando eu ver voc de novo eu conto.

 Tive uma ideia! Se arrume, vou levar voc para um lugar especial. -- falou
instantes depois.

  Mas...  Ele j havia desligado.




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                                13 captulo
 No entendi o que ele pretendia fazer, mas me arrumei mesmo assim. Vesti uma
cala jeans, uma blusa vinho, uma jaqueta de frio branca e botas.

 Quando ele chegou, eu estava terminando de escovar os dentes.

 Desci rapidamente e ele me conduziu at a moto sem me dizer nada. Estava
bastante escuro naquele horrio, sorte que eu havia vestido uma blusa de frio, o vento
era cortante.

 Ele parou a moto no topo de uma ladeira, na parte mais alta da cidade.

 Vem.  Segurou a minha mo e me levou para sentarmos na calada.

  Por que me trouxe aqui?

 Para vermos o nascer do sol.  Ele apontou para o horizonte.  Olhe, est
clareando.

 Apoiei meus cotovelos em meus joelhos e meu rosto em minhas mos. Fiquei
olhando as cores que tingiam o cu.

  No  s por isso que viemos.  comeou ele.

 No?  Virei para olh-lo, seu rosto era uma mistura de preocupao e receio.

 No. Acho que no posso mais adiar esta conversa, mesmo sabendo que voc vai
morar em outro Estado...

  Combinamos de no falar mais nisso, lembra?

 Mas  preciso, Carolina.  Ele suspirou.  Voc sabe que eu te amo, muito mesmo.
Ser que existe algum jeito de... sei l... ficarmos juntos?

 No entendi.  disse confusa. Ele gemeu. Talvez eu o estivesse forando a uma
tomada de atitude, um plano B.

  Quer namorar comigo, Carol?  falou baixinho.

 Ai meu Deus!, pensei.

 Fiquei muito surpresa pelo pedido. No sabia o que fazer. Afinal de contas meu
destino estava traado, eu iria para o sul, estava certa disso, mas...

  Douglas parecia envergonhado ao meu lado. Eu olhava, assim como ele, para a rua
em nossa frente, mas por minha viso perifrica eu percebi que seus ombros estavam
encolhidos e ele mordia os lbios. Senti meu corao acelerar quando ele respirou
fundo e aproximou seu rosto do meu.

 Carol, faz tempo que vinha pensando na sua viagem e isso me di muito. No
quero te perder, eu te amo profundamente.  Ele falava baixinho perto do meu ouvido.
          57
De forma alguma eu ficaria indiferente quelas palavras, eu sentia o mesmo por ele,
talvez at mais.  Eu no podia esperar nem mais um dia para te pedir isso, mas no
quero perder sua amizade, sabe... Eu queria ser seu parceiro, conselheiro, amigo...
ser algum que possa te dar pelo menos um pouquinho mais de felicidade. Acho que
eu lhe daria isso sendo seu namorado ou mesmo... melhor amigo. Qualquer que seja a
sua escolha agora... eu estarei feliz...

 Eu tinha que dizer alguma coisa, mas o qu?

 Virei o rosto devagar para no assust-lo. Eu queria olhar em seus olhos, no que
estivesse duvidando de suas palavras, seria para ter certeza de que aquilo no era um
sonho.

 Ningum nunca demonstrara sentir algo por mim. Eu estava passando por uma nova
experincia na minha vida, motivo pelo qual eu no sabia bem o que dizer.

 Ele me olhava com ternura, talvez tenha conseguido entender o porqu de eu
demorar tanto com a resposta.

 Os raios do sol estavam deixando a cidade iluminada e me deixando aflita tambm.
Douglas desviou os olhos de mim, talvez de propsito ps-se a admirar o cu, sem
esquecer, no entanto, que eu estava a milmetros dele.

 Ento eu o beijei.

  No sei por qu, mas ele no pareceu surpreso com isso. S que era tudo to
mgico! O calor do sol, de suas mos em volta de mim, do meu rosto ruborizado...
Assim como a sensao maravilhosa de poder sentir seu aroma de to perto, sem
falar que nada se compara a um beijo de amor verdadeiro. Perfeito!

 Seus lbios eram delicados nos meus. Fizeram-me esquecer tudo a minha volta por
um momento. Senti-me feliz, como se eu no precisasse de mais nada, tudo que eu
queria estava ali: Douglas.

  Minhas ansiedades e frustraes se foram, deixei que aquela sensao to especial
tomasse conta de mim.

 Ento... posso entender isso como um Sim?  disse ele quando terminamos.

  Fiquei um pouquinho sem graa, ento balancei a cabea positivamente.
Instantaneamente ele deu um sorriso brilhante, um dos mais lindos que j vi. Suspirei.

  Eu te amo tanto, Douglas...  falei baixinho.

 Ele afagou meu rosto com uma das mos.

 Meu celular tocou.

 Droga!

 Enfiei a mo no bolso da minha cala e o tirei de l, sorte que o toque era de uma
msica suave, bem discreta.
        58
Oi.  eu disse ao telefone.  Desculpa.  falei para Douglas, ele assentiu com a
cabea.

  Onde voc est Carol?  quis saber Miriam, aos berros.

  Eu?  Olhei em volta.  No sei.

 Miriam quase teve um treco, enquanto Douglas comeou a rir.

 J to indo para casa, chego a em... 10 minutos.  Levantamo-nos. Ele pegou um
capacete e me entregou.

 T, t bom.  Desligamos.



 Douglas me levou em casa o mais rpido que sua moto podia ir. Miriam estava
parada em frente  porta batendo o p e de braos cruzados.

 Tenho que me preparar para o sermo.  eu disse enquanto descia da moto.

 Quer que eu explique a ela o que houve?  ele falou sorrindo. Senti meu rosto
queimar.

 No, de forma alguma.  apressei-me em dizer. Entreguei a ele o capacete e
acenei, dando alguns passos em direo a Miriam.  Nos vemos mais tarde ento?

 Ele sorriu. Segurou a mo que eu usei para acenar e deu um beijo nela, como se me
cumprimentasse.

  Claro.  respondeu. Ento ligou a moto e se foi.

 Quando cheguei perto de Miriam percebi que me avaliava.

  A que horas acordou?

  Nem dormi.  disse  meia voz. Ela arregalou os olhos.

 Peguei a chave de casa e abri a porta, fui at o sof que estava mais perto e desabei
nele.

  Nada disso, antes de dormir vai me contar tudinho!

 Demorei a responder e ento ela comeou a me fazer ccegas.

 T bom, eu conto.  falei rindo. Ela se sentou no sof e eu deitei a cabea em seu
colo.

  O que estava fazendo com Douglas a essa hora da manh?

 Ele me levou para ver o nascer do sol na parte alta da cidade, foi perfeito!  Ela
fazia carinho no meu cabelo.

  Mas ficaram l um bom tempo. J so 07h ...
          59
   que...  tentei enrolar.

  que...?  A tentativa de imitao da minha voz me fez rir.

 Voc  mais nova que eu mas parece minha me!  Ns duas rimos.  Ele me
pediu em namoro.

  Ai, amiga, que lindo!!!  Ela me chacoalhava.

 Eu sentei no sof. Os olhos de Miriam brilhavam.

  O que mais?  perguntou ela.

  Eu o beijei.  sussurrei.

  h.  Ela fez festa.  Como foi?

 Eu a olhei feio. Ela ficou pasma.

  No vai me contar?  Ela se fez de ofendida.

 Comecei a rir e joguei uma almofada nela.

  Claro que no!  Levantei-me e fui para a cozinha tomar caf.

 Amiga, no faz isso comigo!  Ela correu atrs de mim.  S me diz como foi em
uma palavra.

 Virei para ela e falei baixinho:

  timo!




     60
                                14 captulo
 Miriam e Raquel eram as organizadoras da minha festa-de-aniversrio-surpresa-
que-j-no-era-surpresa.

 Meus pais chegariam na hora do almoo e eu passaria a tarde o mais longe possvel
da minha casa para que ela fosse arrumada.

 Consegui cochilar um pouquinho antes de dar aula.

 A manh foi super agradvel, meus alunos fizeram maravilhas com as caixinhas de
madeira. Como de costume, vendamos tudo o que fazamos e dividamos o dinheiro,
mas dessa vez combinamos de vend-las e dar o dinheiro a algum asilo.

  A campainha da minha casa tocou e eu fui correndo atender. Eram os meus pais,
reconheo de longe o barulho do carro deles.

  Oi mame, oi papai.  eu disse ao abrir a porta.

  Feliz aniversrio de novo!  falou meu pai com um sorriso.

  Obrigada.  Abracei-o.

  Minha me me entregou um pacote grande com um lao vermelho impecvel em
cima.

  Quero que use hoje  noite.  disse ela.

 Peguei o pacote e entreguei ao meu pai, ento abracei minha me.

  Obrigada por vir.  falei.

 Eu os fiz entrar. Meus pais sentaram no sof e ficaram observando minha casa.

  O que acharam?-- perguntei.

  Parabns pela decorao, ficou muito bom.  mame disse.

   bem aconchegante, eu gostei.  disse papai. Sorri para eles.

 Miriam apareceu na sala.

 Aqui, esta  Miriam, a moa que falou com vocs pelo telefone esses dias.  Minha
me a cumprimentou com dois beijinhos no rosto e meu pai apenas sorriu.

 Eles iriam ficar at sbado  tarde em minha casa. Eu os ajudei colocando suas
malas no quarto de hspedes, que tinha uma cama de casal, e ns fomos almoar
num restaurante.

 Por que vocs e seus amigos escolheram esta cidade para montar o ateli? 
perguntou meu pai enquanto cortava a carne.


        61
 Ns fizemos uma pesquisa e as cidades que tinham um alto nvel de aceitao de
arte eram as escolhidas. Ento sorteamos as cidades e eu fiquei com esta aqui. Tive
muita sorte, gosto muito de morar neste lugar.

  muito bonita, parece que tudo  feito de brinquedo.  disse minha me olhando
pela janela do restaurante.

 Verdade. Minha cidadezinha tinha um charme todo especial. Nas ruas havia rvores
de diversos tipos, as casas em estilo europeu com flores nas janelas eram
encantadoras, tambm tinha os bosques, os parquinhos que enchiam de crianas
depois da aula  tarde, as padarias arrumadinhas que mais pareciam ter sado da
histria de Joo e Maria, a biblioteca pblica, o pequeno shopping, at o mercado
municipal era divertido.

  No vai comer?  perguntou meu pai para mim.

  Ah , vou sim.

 Depois do almoo fomos passear pela cidade. Eles adoraram! Ficamos conversando
sobre as novidades na nossa famlia, eu estava por fora de quase 70% das
atividades.

  Diverti-me bastante com as histrias que meu pai me contava e percebi que ele era
f nmero um da minha me.

 No tem jeito, eu no consigo me acostumar com outro tipo de comida, acho que 
o tempero que ela faz, deixa tudo mais gostoso.  Meu pai estava elogiando a comida
da minha me.

 Seu pai  um puxa-saco, filha.  disse minha me revirando os olhos.

 Fiquei observando os dois por um momento, pareciam adolescentes cochichando de
vez em quando, roubando beijinhos, arrumando o cabelo um do outro quando o vento
o desarrumava, enfim, eles formam o casal perfeito.

 Descobri que eu estive agindo de forma errada todo esse tempo, no  certo culpar
as pessoas pelo jeito que so. Se meus pais me cobravam tanto, mesmo que
estivessem errados, era porque acreditavam que o que estavam fazendo era o melhor
para mim.

  Outra coisa que aprendi: dilogo  a chave para tudo! Agora entendo porque meus
pais raramente brigam, eles passam a maior parte do tempo conversando, assim se
conhecem melhor e no fazem coisas que irritam um ao outro. Como me arrependo de
no ter compartilhado com eles a minha vida, o sofrimento pelo qual passei poderia ter
sido evitado.

 Mas como o tempo no volta atrs...

 Pai, me, quero falar com vocs.  falei a eles. Ento pararam de andar. Indiquei
um banquinho e se sentaram.  Peo desculpas por todos esses anos em que estive
ausente, reconheo que no fui a filha que vocs esperavam ter, me arrependo por
          62
desperdiar tanto tempo com coisas de menor importncia ao invs de participar
ativamente da nossa famlia. Eu amo vocs. E desejo, do fundo do meu corao, que
me perdoem.  No consegui dominar minhas emoes, elas se converteram em
enormes lgrimas que brotavam sem parar de meus olhos, mas eu no estava triste,
imensamente feliz seria a expresso correta para descrever o que eu sentia. Um peso
enorme acabara de abandonar meu ser. No posso atribuir essa vitria a mim, algo
maior e surpreendente estava no controle e indicava a maneira que eu deveria agir.
Deus estava me ensinando a viver de novo.

  Senti um calor afetuoso em volta de mim e quando abri os olhos vi que meus pais me
abraavam, ento, com o cessar das lgrimas, retribui o gesto. No sei por quanto
tempo ficamos assim, mas foi o suficiente para tornar esse momento numa das
lembranas mais preciosas que possuo.

 O bom filho a casa retorna.




        63
                                15 captulo
  Tive de entrar em casa com os olhos vendados, minha me me levou para o quarto
junto com a enorme caixa. Tomei banho e fui saber o que havia ganhado de presente
dos meus pais.

 Espero que goste.  disse minha me levantando a tampa da caixa.

  Era fabuloso! Um vestido vermelho de tecido fino e elegante, comprimento at o
joelho e de alas estreitas.

   lindo! Muito obrigada, mame.  Sorri para ela.

 Ela me ajudou a vesti-lo, ficou perfeito. Fiz um rabo-de-cavalo no cabelo e minha
me me emprestou um colar de ouro e um par de brincos.

  Mame, eu queria te contar uma coisa.

  Pode dizer.  Ela se sentou na beirada da cama.

 Sabe aquele rapaz que eu te falei por telefone?  disse. Ela pensou um pouco e
depois balanou a cabea positivamente.

  Ento... ns estamos namorando.

 Ela pulou da cama e me abraou.

  Minha princesinha est crescendo.  falou sorrindo. Eu ri.

 Raquel avisou de fora do quarto que podamos descer. Minha me terminou de se
maquiar e ns descemos.

 A casa se encontrava muito escura, mas dava para saber onde estavam por causa
dos cochichos, tentavam acalmar Pepino. De repente acenderam as luzes da cozinha
e depois a da sala.

  PARABNS PRA VOC...  cantavam e batiam palmas.

 Estavam ali reunidos alguns alunos de pintura em madeira, todos de pintura em tela,
alguns funcionrios da lanchonete onde Christine trabalhava, o veterinrio de Pepino e
sua esposa, Douglas, Miriam, Raquel, meu pai e meu filho.

 Douglas acendeu as velas do bolo e depois que terminaram a msica eu as apaguei.
Pediram-me para escolher algum e dar o primeiro pedao, nem precisei pensar
muito. Peguei a esptula, cortei o bolo de abacaxi e entreguei a meu pai.

 Ele ficou muito surpreso por isso. Dei o primeiro pedao a ele porque no deve ser
nada fcil o papel de pai, eu queria homenage-lo. Costumamos deix-los em
segundo plano sendo que tm uma importncia muito grande na famlia.



          64
 Meu pai me agradeceu dando um beijo em minha testa e foi comer em algum
cantinho. Miriam e minha me trataram de servir os outros convidados enquanto eu ia
cumprimentando alguns.

 Algum cutucou meu ombro quando eu estava colocando gua numa violeta perto da
pia.

 Voc est fantstica neste vestido!  disse Douglas quando virei para olh-lo. Sorri
e dei um beijinho rpido nele. Ele fez carinho em meu rosto.  Quase me esqueci do
seu presente.  Ele segurou minha mo e me levou para sala.

 Havia dois pacotes em cima do sof, um com embrulho estampado de corao e
outro com desenhos da Minnie. Sentamo-nos e ele me deu o segundo pacote para
abrir.

  No precisava se incomodar.

  Fiz questo de compr-los.

 Abri o pacote. Abracei o objeto que estava dentro dele.

 Muito obrigada, eu sempre quis ter um.  eu disse, num tom infantil.

 Era um boneco do Batman.

 De nada. Eu comprei o Aquaman para mim, podemos brincar juntos depois. 
falou. Ns rimos. Ele me entregou o primeiro embrulho.

 Eu o abri. Era um ursinho panda que segurava um corao na mo. Uma fofura de
presente.

 Quando levantei os olhos, Douglas estava sorrindo.

 Feliz aniversrio, meu amor.  disse ao me abraar. Foi uma das coisas mais
lindas que j o ouvi dizer, no s pelas palavras mas pelo jeito como as pronunciou,
de forma doce, suave, carinhosa... sincera.

 No fim da noite, levei Douglas para conhecer meus pais. Estavam olhando os
quadros no ateli.

 Minha me sorriu quando entramos e chamou meu pai.

 Bom...  Eu nunca gostei de apresentaes.  Mame, papai esse  o Douglas.
E...  minha me continuou para mim.

 Me chamo Samantha e meu marido Edgar.  Os dois estenderam a mo direita
para Douglas, mas meu pai recuou para que apertasse primeiro a da minha me.

   um prazer conhec-los.  disse meu namorado sorrindo.

 Ns quatro entramos em casa, eu e minha me fomos preparar ch enquanto meu
pai e Douglas se sentavam no sof da sala e papeavam.

           65
  O que achou dele?  perguntei a minha me.

 Fez uma excelente escolha, ele  muito simptico, educado, bonito... um completo
cavalheiro.

 .  falei com certo pesar. Minha me veio at mim e colocou as mos em meus
ombros.

  Algo errado?

  Talvez no dure muito.

  Por que no?

  Vamos para o sul, lembra?

 Ah!  Ela pensou um pouco.  Mas namoro a distncia... --eu a interrompi.

  No d certo.

 Sei como .  Ela pegou uma bandeja com as xcaras.  Conversamos depois.

 Peguei o bule e fui com ela para a sala. Encontramos os dois falando sobre
astronomia. Servimos o ch e ns quatro ficamos conversando at as 23h.

 J est na minha hora.  disse Douglas levantando-se.  Foi um prazer imenso
conhec-los.

  O prazer foi nosso.  disse minha me.

 Ele apertou a mo de meus pais e eu o acompanhei at a moto.

 Ao se aproximar dela Douglas virou-se para mim e me abraou de repente,
escondendo o rosto em meu pescoo.

 O que houve?  perguntei a ele. Passei meus braos em volta de seu corpo.

  Seu pai me disse que eles j programaram a viagem.

  Mas no me...  ele me interrompeu.

 Vo contar a voc hoje ainda.  Sua voz transmitia tristeza. Eu o abracei mais
forte, ele levantou o rosto e me aninhou em seu peito.

  J tem a data?  perguntei quase sem voz.

 Ele demorou com a resposta, eu afastei meu rosto para olh-lo e percebi seus olhos
midos. Isto era um mau sinal. Com as pontas dos dedos afaguei o rosto de Douglas.
Ele ficou me olhando como se tentasse me memorizar, ento me beijou.

 Foi algo mais intenso que da primeira vez, uma forma desesperada de dizer Eu te
amo, no me deixe, por favor!. Queria que o tempo parasse para eu no precisar
dizer adeus a ele, pois durou to pouco...

       66
  Quero que saiba...  No o deixe terminar a frase.

  No faa discurso de despedida.  pedi.

 Ficamos em silncio por um momento olhando o nada. Em minha cabea vrias
perguntas apareciam e algumas lembranas vinham e iam.

  E ento, quanto tempo temos?  perguntei.

 Douglas uniu as sobrancelhas e no falou nada. Ergui seu rosto apoiando minha
mo em seu queixo. Instantes depois ele olhou para mim.

  Apenas 15 dias.




   67
-Continuao a partir da perspectiva de Douglas-


                                  16 Captulo
 Acordei. Meus olhos estavam irritados, um pouco inchados at. Tive um pesadelo
horrvel. Levantei-me da cama para que a imagem da Carol morrendo num acidente
de carro no voltasse. Fui para o banheiro tomar uma ducha, abri o chuveiro e deixei
que a gua morna casse sobre mim durante um bom tempo.

  No  justo! Deveramos ficar juntos, o amor no  o mais importante? Ser que
tenho que provar aos pais dela o que sinto?, pensei.

 O telefone tocou e eu sa rpido do banho para atender.

  Al?

  Douglas,  a Miriam.

  Oi, Miriam, aconteceu alguma coisa?

 A Carol t chorando sem parar e ningum aqui quer me explicar o que est
acontecendo.

 Fiquei em silncio por um instante.

  Voc tambm no vai me contar?  perguntou.

  Os pais dela j marcaram o dia em que iro para o sul.

 Ela pareceu chocada.

 Quando  que vo entender que ela j sabe se cuidar sozinha? Que droga! Eles s
sabem deix-la infeliz!

  Tambm no  assim, Miriam. Querem ficar com ela mais tempo.

  Como pode ficar to calmo? Pode ser que nunca mais a veja.

 Sentei-me no sof e apoiei o cotovelo no joelho e a mo na testa.

  No precisa me lembrar disso!  falei a ela.

  Foi mal, me desculpe.  disse com pesar.

  Quer que eu v ver a Carol?

 Melhor no, ela t muito mal agora, talvez quando os pais forem embora.

  Me ligue, est bem?

  Certo.

 Desligamos.
        68
 Fiquei sentado com o telefone na mo por um tempo. Eu devia ser o porto-seguro
dela nesse momento, mas eu estava com um semblante to abatido, s de olhar j
saberiam o que se passa.

  Levantei-me temendo que a toalha estivesse molhando o sof, coloquei o telefone no
lugar e fui para o quarto vestir meu uniforme de trabalho.

                                           ...

  Bom dia, tio.  eu disse quando cheguei  empresa.

 Bom dia. Mas que cara  essa?  falou enquanto lanava alguns pedidos no
computador.

 Estou com alguns problemas.  limitei-me a dizer. Fui abrindo as outras janelas do
lugar.

  Quer conversar?

 Respirei fundo.

  No acho que voc conseguiria me ajudar.

  Vamos, me diga o que .

 Sentei em cima de um balco.

  a minha namorada, os pais dela iro lev-la para o sul em 15 dias.

  Entendo. No deve ser nada fcil perder a pessoa que se ama.

 Fiz que sim com a cabea.

  O que mais me chateia  no entender o porqu de tudo isso.

  Est se referindo a Deus?

 .  Cocei o queixo.  Porque... tipo... se era para ela ir embora porque eu tive de
conhec-la? Pior, me apaixonar por ela. Est certo que eu devia apresent-la ao
Criador, mas eu no poderia ser s amigo? Isso  brincar com os sentimentos dos
outros.

 Ele sorriu, e eu fechei a cara.

 s vezes no entendemos as coisas, mas  tudo providncia de Deus, no se
preocupe. At porque no cabe a ns decidir o rumo da vida de ningum.

 Eu gostaria de entender, j pensei em vrias hipteses mas nenhuma faz o mnimo
sentido.

  No esquenta a cabea com isso.

  T bom, t bom.  Desci do balco e fui trabalhar.

           69
  Nesta estao do ano costumam aparecer muitos clientes e hoje no foi diferente,
trabalhei bastante a manh toda. Meio dia e meia fechamos a loja e eu fui almoar na
casa do meu tio.

 Ele mora numa casa enorme num bairro um pouco afastado do meu. Tem um filho
de 13 anos chamado Pedro e minha tia se chama Melannie.

 At que enfim aceitou meu convite para vir almoar aqui.  disse minha tia
terminado de colocar a mesa.

 Pois .  respondi. Meu primo veio se sentar  mesa e me cumprimentou. Eu e
meu tio fomos ao banheiro lavar as mos para almoar.

  Voltamos e nos sentamos a tempo de pegar o incio da orao que minha tia estava
fazendo junto ao meu primo.

  Que seja feita a Vossa vontade e no a nossa.

                                           ...

 Eram 15h40 quando cheguei a casa da Carol. Eu no sabia o que esperar ento me
preparei para o pior.

 Miriam atendeu a porta.

 A Carol est no ateli. J vou indo, qualquer coisa me telefone.  Ela saiu. Fiquei
uns instantes parado no meio da sala, eu esperava ouvir dela algumas
recomendaes ou advertncias.

  Fui andando silenciosamente para o ateli. De l vinha uma voz doce, ela estava
cantando. Eu j havia escutado aquela msica uma vez do carro dela, era I need to
love me da banda Barlow Girl, se no me engano.

  Parei na porta e fiquei observando. Carolina estava pintando um quadro, no parecia
infeliz muito pelo contrrio, ela transmitia paz.

 Dei algumas batidinhas na porta e entrei, ela parou de cantar e olhou para mim.
Mostrei a rosa que eu trouxe para ela e um sorriso gracioso preencheu seu rosto.

 Carol pegou a flor e colocou num vasinho de gua perto de ns.

  Muito obrigada.

  Sorri para ela e dei um beijinho em sua bochecha. Sentei-me numa banqueta ao seu
lado e fiquei olhando-a pintar. Era um campo verdinho com uma rvore em primeiro
plano e ao fundo um pr-do-sol.

  Est parecido com o que vimos uma vez, lembra?  disse ela.

  Verdade.

 Ela virou para mim e sorriu.

           70
 Desde a primeira vez em que a vi eu sabia que ela era a garota que eu devia amar
para o resto da minha vida. Engraado como as pessoas nascem umas para as
outras.

  Como foi o seu dia?  perguntou-me.

  Hmm, bom.

  S bom?

  . E como foi o seu?

  timo.

  Miriam me disse que voc estava muito triste esta manh...

  J passou.  Ela continuava a pintar.

  Alguma coisa nova aconteceu?

 Se est perguntando sobre os meus pais: nada mudou. Mas comigo tem algo novo
sim...

 Esperei.

 Decidi que a vida  uma s.  disse virando-se para mim com um sorriso enorme.

 Ri, simplesmente.




       71
                                  17 captulo
 Passamos a tarde toda conversando sentados na rede que fica na varanda da casa
dela.

  E por que prefere guitarra?  perguntei.

 O som  mais interessante. Mas eu adoro msica medieval tocada no violo.

  Hmm... tem algum livro preferido?

  Tenho. Chama-se A rainha dos doces. E voc, tem?

  Senhora.

 Ela riu.

 Li esse livro quando ainda estudava, eu morria de raiva de Aurlia.

  Por qu?  perguntei brincando com uma mecha do cabelo dela.

  Ela maltratava muito Fernando.

  Existem histrias mais cruis.  falei.

 A rede balanava devagar e o cu estava escurecendo.

  Voc podia ir embora comigo.  comentou preguiosamente.

  Bem que eu gostaria.

  O sul nem  to longe.  Ela deitou a cabea em meu ombro.

  Verdade, so s trs dias de viagem...

 Carol comeou a fazer ccegas em mim.

 Que desanimado voc , no parece nada com aquele palhainho que conheci
num Caf tempos atrs.

 Ah ?  Pensei um pouco  Foi voc quem pediu, vou contar uma piada.  Ento
ela se endireitou na rede.   a seguinte: Havia dois pintinhos no galinheiro, um era
caipira e o outro no. O que no era disse Piu. Adivinha o que o outro disse?

  No sei. O que ele disse?

  Pirr.

 Ela morreu de rir, mas no foi da piada.

  Quem te ensinou?  perguntou.

  Uma amiga, Bela. Ela vivia contando essa piada, a decorei.

         72
  Ela deve ser divertida.

   sim.  respondi com um sorriso.

 Minutos depois ela virou para mim.

 Tive uma ideia!

  Qual?

  Que tal ir  praia amanh de manh?

  Seria timo, amor.

 Ela ficou me olhando com um sorriso engraado. Eu nunca havia parado para
observ-la com detalhes. Ela era inexplicavelmente linda! Eu adorava a cor de sua
pele, seus cabelos negros, seus olhos amendoados da cor cinza, eram brilhantes, sua
pintinha perto da boca, seus lbios cheinhos e avermelhados.

  Voc me lembra a Pocahontas.

 Ela se divertiu com isso e me deu um monte de beijinhos.

  Te amo.  dissemos juntos.



  Cheguei em casa s 19h15, eu estava me sentindo muito bem. A tarde tinha sido
maravilhosa, eu e Carol ficamos conversando sobre diversas coisas, era como se eu
fosse seu amigo de infncia e estivesse relembrando o passado como, por exemplo, o
dia em que ela e as primas fizeram uma casinha no quintal da av ou quando ela
andou a cavalo pela primeira vez.

 Eu sempre sonhei em ter um relacionamento  base de amizade...  como dizem:
quem espera sempre alcana.

 Dizem tambm que o homem se realiza quando tem um filho, escreve um livro e
planta uma rvore, eu discordo, o homem se realiza quando encontra o Criador do
universo. No consigo mais me imaginar sem Deus, por mais que eu tenha motivos
para ficar triste eu sei que Ele vai me ajudar a superar e solucionar meus problemas,
s tenho que descansar e confiar Nele.

 Tirei um pacote de macarro instantneo do armrio e coloquei em cima do
microondas. Peguei a toalha no varal e subi para o meu quarto.

 Ser feliz  questo de escolha, pensei.

                                           ...

 Acordei cedo no domingo, tomei caf rpido para arrumar a casa, eu iria preparar um
almoo para Carol. Depois de ajeitar algumas coisinhas para comermos e me vestir
para ir  praia, fui  casa da mulher mais linda do mundo.

         73
  Bom dia, meu amor.  disse ela sorrindo.

  Bom dia. Pronta para ir?

 Ela fez que sim com a cabea enquanto pegava a bolsa que estava no sof. Depois
de trancar a porta fomos at a minha moto de mos dadas. No tem coisa melhor do
que estar junto da pessoa amada.

 A praia ficava um pouco longe da cidade, mas s pela paisagem valia  pena.

 Tnhamos que descer a serra e passar por um vilarejo daqueles de filme de terror.
Era rodeado por grandes rvores, o que deixava o lugar meio escuro por causa da
sombra. Sinistro.

  Em compensao, a praia era divina! A areia era branquinha, fofa e limpa, o mar
parecia se misturar com o cu, tamanha era a perfeio do tom azul, os coqueiros
imensos davam um ar paradisaco ao lugar.

  Incrvel!  disse Carol contemplando a praia.

 Estacionei a moto perto de um dos raros quiosques que existia ali e descemos para a
areia.

  Olhamos um para o outro, parece que tivemos a mesma ideia. Tiramos nossas
roupas rapidamente e corremos para gua parecendo duas crianas que nunca viram
o mar.

  Nunca me diverti tanto.  disse ela sorrindo.

 Acho que aprendi, olhe aqui.  falei. Carol havia me ensinado a espirrar gua
juntando as mos e apertando.

 Ficamos nadando durante um tempo at que achamos um barquinho vagando por
ali, subimos nele e ficamos descansando.

  Um refrigerante cairia bem agora.  comentou.

 Verdade.  Olhei em volta.  Estamos nos afastando muito da orla.

  Onde esto os remos?

  No sei.

 Olhei para trs. A praia estava to longe. Olhei para Carol.

 Xii, estamos fritos!  falou se divertindo.  Se eu morrer minha me me mata. 
Ns rimos.

 Coloquei minha mo na gua e fui remando, melhor, tentando remar, alm de
cansado, eu estava com preguia.



        74
  O engraado  que minha namorada no parecia nada preocupada com a situao,
ela estava agitada, mexendo nos bagulhos espalhados pelo barco. E eu tentava no
ficar olhando muito para ela. O biquni lhe caa muito bem. Ento olhei para a gua.

 De repente ouvi um barulho e o barco comeou a se mover rpido. Levantei os
olhos.

  Carol? chamei.

 Carolina acenou com uma das mos. Fui at ela, andando com dificuldade pelo
barco, sentei e me inclinei.

  O que est fazendo a?

 Quero chegar logo em terra firme.  Carol estava na gua empurrando o barco.
Quase ca no mar com o impulso que ela deu.

  Suba aqui, eu empurro no seu lugar.

  No, t tudo bem.  Sorriu para mim.

 Instantes depois j estvamos deixando o barco.

 Ela pegou duas toalhas de dentro da bolsa e me entregou uma. Sentamo-nos
embaixo de uma sombra tima e ficamos bebendo gua de coco.

 Comecei a desenhar na areia.

  O que ?  Carol se inclinou para mim.

  Eu e voc.  Continuei desenhando.

  E isso aqui?  Ela apontou.

 Dei um beijo em sua bochecha.

   o Pepino, ou pelo menos era para ser.  disse. Ela sorriu.

 Desenhei um corao e escrevi Eu sei que vou te amar.

  Queria fazer um boneco de neve.  comentei.

  Podamos ir a um pas que neva...

  Morar num barco...

  Casar pulando de pra-quedas...

  Ter 11 filhos...

 Comeamos a rir.




        75
 Em casa fiz bife  parmegiana, arroz e salada tropical. Ela adorou a comida, eu nem
sabia que cozinhava to bem.

  Depois do almoo eu a levei em casa, combinamos de nos encontrar na porta da
igreja para o culto de hoje  noite.  incrvel como Deus tem cuidado de ns.




        76
                                18 Captulo
 Os dias passavam cada vez mais rpidos, tentvamos aproveitar cada segundo
possvel juntos. Jantamos em vrios restaurantes, fomos pescar, fizemos uma horta
no quintal da casa dela, piquenique no jardim, fomos ao cinema, jogamos domin na
pracinha com alguns amigos, fomos com o pessoal da igreja ao centro da cidade
entregar s pessoas que passavam cartes que ns mesmos fizemos, estava escrito
neles Sorria, Jesus te ama!.

 Passa mais azul nisso.  pediu ela. Carol estava me ensinando a pintar um quadro.

 Voc  perfeita, sabia?  comentei. Ela sorriu e mordeu o canto dos lbios.  Est
melhor agora?  perguntei rindo. Meu desenho ficou pssimo.

 Ela riu comigo. Pintei a ponta do seu nariz de azul, como resposta Carol desenhou
um corao na minha bochecha.

  Os objetos de sua casa estavam quase todos encaixotados, seus pais viriam busc-
la no outro dia, sbado bem cedo. A casa, o ateli e o carro ela deixou para Miriam
tomar conta. Pepino ela deixou comigo porque seus pais no gostam muito de
cachorro.

  Eu te amo.  disse ela pouco antes de me beijar.

 Durante esses dias eu vivi como se nada estivesse acontecendo, mas agora me dei
conta de que falta pouco para eu perder metade de mim.

 Eu a abracei e tentei segurar as lgrimas o mximo que pude.

 Esperei por voc a minha vida inteira.  disse ela fazendo carinho em meus
cabelos, sua voz era to doce, reconfortante. Minha vontade era dizer que eu a amava
com todo o meu corao. Ela segurou meu rosto com as duas mos.  Nunca amei
outra pessoa como amo a voc, e se for da vontade de Deus que fiquemos juntos
nada nem ningum nos impedir disso.

 No consegui transformar meus sentimentos em palavras, as coisas pioraram
quando vi uma lgrima cair de seus olhos. Levantei-me e a abracei mais forte que da
primeira vez.

 Meu amor, no chore.  consegui dizer.  Por favor, vai dar tudo certo.  tentei
convencer a ela e a mim disso.

 Ela passou os braos em volta do meu pescoo e escondeu o rosto.

  Promete?  falou com a voz abafada.

  Prometo.  eu disse beijando seus cabelos.

  Carol levantou o rosto. Seus olhos pareciam pedrinhas brilhantes. Enxuguei suas
lgrimas e tentei sorrir. Ela ficou olhando para mim, parecia estar pensando em

         77
alguma coisa importante, tocou meu rosto de forma delicada e ficou passando a ponta
do dedo no desenho que havia feito. Sorriu para mim e eu retribu o sorriso.

  Prometo te amar para sempre.  falei.

  Tambm prometo.

  Aproximei meu rosto do dela e a beijei carinhosamente nos lbios como forma de
firmar uma aliana.

                                           ...

 noite faramos um culto de despedida para Carol num restaurante perto da baa.
Combinamos de nos encontrar l s 19h30.

 Quando cheguei, estacionei minha moto e me sentei na escada que dava para a
porta principal do lugar. O cu estava muito bonito, sem nuvens e bem estrelado. A
Lua imensa derramava sua luz nas guas e o ambiente do restaurante era o mais
agradvel que consegui achar.

 Algum iluminou a escada com os faris altos, coloquei a mo em frente ao rosto e
ouvi risadas vindas do carro.

  Desliguem isso.  resmunguei.

 Vieram at mim e eu me levantei.

 E a, cara, como vai?  Cumprimentou-me um dos cinco que saram do carro.

  T bem, Miguel.  respondi.

 Vai ser na parte de dentro ou na sacada?  perguntou meu outro colega.

  Sacada. Podem entrar, se quiserem.

 No quer companhia?  disse minha amiga, j encostando no meu ombro.

 Dei um passinho para trs.

  No, no, est tudo bem.

 Eles entraram no restaurante. Voltei a me sentar e instantes depois Miriam, Carol e
Raquel chegaram.

 Abracei Carolina e sorri para as outras duas.

  Vamos?  eu disse.

 Ela fez que sim com a cabea e ns entramos no lugar.

 O culto foi ministrado pelo lder dos jovens da igreja, depois teve comes e bebes.

 Vem c.  falei  Carol. Peguei sua mo e a levei para uma parte da sacada onde
no tinha quase ningum.
       78
  Voc est lindo com esse colete.  disse ela sorrindo.

 Obrigado, voc tambm est linda.  Tirei uma caixinha do bolso da cala e
entreguei a ela.  Presente.

 Ela abriu devagar e sorriu para mim.

  perfeito! Muito obrigada.  Abraou-me. Eu havia dado a ela um colar de prata
com um pingente de corao.  Me ajude a colocar, por favor?

 Carolina me entregou o presente e virou-se de costas para mim. Afastei seus longos
cabelos com cuidado, pousei o colar sobre sua pele e o abotoei. Dei um beijinho em
seu ombro e a abracei.

 Ficamos um bom tempo olhando o mar sem nada dizer, enquanto nossos colegas
papeavam despreocupados com o que se passava.

  Amor, j est tarde. Pode me levar em casa?

  Claro.  falei.

  Avisamos Miriam e Raquel de que iramos embora. Despedimo-nos da galera e
fomos para casa.

 Quando chegamos em frente a casa dela comecei a sentir o que chamamos de
borboletas no estmago. Lembrei-me da primeira vez em que a convidei para jantar,
do nosso quase primeiro beijo, do bilhete que entreguei a ela, o dia em que a pedi em
namoro...

  Falta pouco.  balbuciei quando me entregou o capacete.

 Ela parecia ansiosa por algum motivo, olhava de vez em quando para a porta e
depois para mim, para o relgio em seu pulso.

  Quero fazer uma coisa antes de ir embora.  disse por fim.

  E o que ?--perguntei.




         79
- Continuao a partir da perspectiva de Carolina -


                                   19 captulo
  Quero desenhar voc.

 Ele sorriu para mim.

  Tudo bem.  disse Douglas.

  E...

  E...? Fala Carol.

 Eu... eu queria que me fizesse companhia, no quero ficar sozinha hoje.

 Ele parecia um pouco sem jeito.

  Hmmm, t tudo bem... Eu acho.

 Entramos em casa e encontramos Pepino dormindo perto da escada com um monte
de coisas espalhadas pelo cho.

  Droga, ele aprontou de novo.  comentei.

 Douglas me ajudou a guardar os objetos dentro de uma caixa.

  Bom  eu disse, vou buscar o papel para te desenhar.

 Ele acenou com a cabea e foi se sentar no sof. Subi as escadas o mais rpido que
o salto da minha sandlia me permitia ir. Quando cheguei ao meu quarto arranquei as
sandlias e as joguei longe. Procurei em meio s caixas o lugar em que eu havia
guardado meus papis, no foi fcil achar, mas consegui.

 Desci as escadas descala chutando as abas do meu vestido.

  Coloquei os papis, lpis e borracha no brao do sof para colocar um banquinho em
frente a ele. Feito isso, voltei a pegar meus materiais.

 Fingi no perceber que Douglas acompanhava meus movimentos.

  Pronto?  perguntei.

  Sim.

  Desenh-lo no parecia ser to difcil, mas cada vez que eu levantava os olhos mais
tempo eu me demorava em voltar a rabiscar a folha. Eu queria e no queria desenhar,
talvez tenha sido s um pretexto para ficar olhando para ele.

  Como est ficando?  perguntou-me.

 Mordi o canto do lbio. Seria terrvel dizer que eu at agora no desenhei quase
nada?
      80
 Ele estendeu a mo e abaixou o desenho que estava em frente ao meu rosto.

  Voc deve gostar muito de meus cabelos.  Sorriu para mim.

  No estou conseguindo me concentrar.

  Me deixa tentar desenhar voc?

 Balancei a cabea positivamente e entreguei a ele a folha, o lpis e a borracha.

 Douglas se levantou, abriu a janela perto de ns e desabotoou o colete.

 Apertado demais.  apressou-se em dizer. Dobrou as mangas da blusa e voltou a
se sentar.

 Fiquei mais ou menos trinta minutos posando para ele. Tinha um jeito to elegante e
atraente, um certo encanto que me deixava atordoada.

  Prontinho.  Sorriu para mim.

 Sentei-me ao seu lado no sof e ele me entregou o papel.

  Ficou lindo.  falei. O desenho era em estilo japons.

  Voc que  linda.

 Comecei a rir instantes depois. Ele olhou para mim curioso.

  Lembrei do nada a piada que voc me contou.  eu disse.

 Ele riu comigo.



 Improvisei uma cama para ele no sof e eu resolvi que dormiria no div.

 Estvamos sentados no cho vendo fotografias antigas que eu encontrei numa
caixinha.

  Sua me?  apontou ele.

  .

 Parece muito com voc.  Douglas olhou para mim.  Voc tem o nariz  Ele
apertou de leve meu queixo -- e o queixo dela.

 Fiquei olhando a foto por um tempo.

  Eu no queria ser parecida com ela.  disse malcriada.

  Ah, Carol, fala srio.  Ele cruzou os braos.




           81
 Se no fosse a ideia maluca dela a minha casa no estaria toda dentro de caixas
assim  eu falava de forma spera , eu no estaria irritada e voc...  parei com
minha grosseria bruscamente.

  E eu...?

 Olhei para ele.

 Voc no estaria aqui para se despedir de mim.  falei baixinho.

 Ele passou o brao a minha volta, encostei a cabea em seu ombro e ele me fez
carinho.

  Vai dar tudo certo.

  Tem algum plano?  perguntei confusa.

  No...

  Ento como vai dar tudo certo?

  Vamos perguntar isso a Deus, ele deve ter as respostas.

 Ri um pouco. Ainda no tnhamos uma soluo, mas a esperana deve ser a ltima
que morre, assim espero.

                                           ...

  Bom dia, dorminhoca.

 Coloquei a mo em frente ao rosto.

  No acredito que dormi.

 Ele deu uma risadinha e afagou minha mo.

  Ainda tem duas horas at eles chegarem.

 Olhei para ele desanimada.

 S duas horas.  falei levantando a cabea de seu colo e meu corpo do sof.

 Fui para o quarto trocar de roupa. Peguei uma bermuda azul e uma regata branca e
vesti. Escovei os dentes, penteei o cabelo e desci as escadas.

 Encontrei Pepino correndo pela casa e Douglas lavando o rosto no lavabo. Encostei-
me na porta do cmodo.

  Espero que consiga educ-lo.

 Douglas espiou Pepino.

  Tambm espero. -- Sorriu para mim.


        82
 Eu e ele tomamos caf da manh enquanto meu filho comia rao.

 Algum tocou a campanhinha. Demorei para levantar da cadeira, eu gostaria de
poder fingir que no havia ningum em casa.

  No tenha medo.  disse-me Douglas.

 Por fim acabei indo atender a porta. Eram os carregadores de mudana.

 No tenho escolha mesmo, pensei.




  83
                               20 captulo
 O caminho com a mudana j havia partido, nesse meio tempo Miriam e Raquel
chegaram para se despedirem.

 Fui andando at a porta da frente olhando o que eu chamava de lar. Durante quase
seis meses essa casinha foi meu refgio feliz e agora vou deix-la.

 Sentei-me na escada do lado de fora da casa junto com meus amigos. Ficamos um
bom tempo ali apenas em corpo, nossas mentes deviam estar vagando, bem longe.

  Ouvi um barulho familiar se aproximando, junto com ele veio uma melodia triste,
violinos estavam sendo tocados em minha mente. Msica de velrio.

 Meu pai estacionou o carro em frente a minha casa. Fiquei olhando, aflita, aquele
veculo, meus ps pareciam grandes blocos de cimento indispostos a se
movimentarem. Um torpor foi tomando conta do meu corpo. Eu lutava comigo mesma
para fazer alguma coisa, nem que fosse sair correndo dali, porm instantes depois me
pus de p. O movimento foi to rpido que eu tive de escorar no corrimo da escada
de to zonza que fiquei.

  Voc est bem?  perguntou Miriam.

  Estou.

  Os trs se levantaram. Raquel foi a primeira a me abraar, desejou-me sorte e
felicidade.

 Se cuida, t bom? Quero que me mande notcias todos os dias e v se vem nos
visitar tambm.  disse Miriam.

 Depois me abraou e desceu as escadas junto com Raquel.

 Meu corao comeou a acelerar, minhas mos tremiam e eu estava com um n na
garganta. Douglas deu um sorriso desajeitado e abriu os braos.

 Eu te amo.  falei chorando. Joguei-me em seus braos e suas mos me
seguraram firmemente.

 Por que isso est acontecendo? Onde ser que eu errei? A que lugar eu perteno?
Eram vrias as perguntas sem respostas.

 Ainda nos veremos, encontrarei um caminho at voc.  ele disse abraando-me
mais forte.

  Eu quase no conseguia respirar tamanha era a perturbao dentro de mim, e
lgrimas, soluos, dor. Muita dor. No era fcil lidar com perdas.

 Soltei-me de seus braos para enxugar meu rosto, eu no queria deixar transparecer
o que estava se passando no meu interior. Douglas estava cabisbaixo, coando os


        84
olhos com as costas da mo. Apesar de ser um momento horrvel o de despedida eu
devia melhorar o clima, por ele e por mim tambm.

 Adorei ter conhecido voc.  eu disse. Ele olhou para mim.  Obrigada por ser meu
melhor amigo. No me arrependo de nada; melhor, me arrependo de no ter te beijado
no primeiro dia em que samos juntos.  Eu ri espantando algumas lgrimas de meus
olhos. Ele me deu um sorriso tmido.

 Meu pai buzinou. Olhamos para o carro, depois um para o outro.

 Douglas deu um passo em minha direo, ergueu meu rosto apoiando a mo em
meu queixo e ajeitou uma mechinha de meu cabelo, a sua preferida. Eu estava to
apaixonada que poderia ver um arco-ris em seus olhos.

 Podemos fazer da maneira certa agora.  disse-me encostando sua testa na
minha.

 Sorri para ele.

  Meu corao pertence a voc, Carol.

 Como um m, senti-me atrada por ele, e ento nossos lbios se uniram
expressando amor.

  Em nossa volta imperou o silncio, talvez fosse devido  solenidade do momento.
Era algo que devia ser armazenado em nossas mentes como uma doce e triste
lembrana.

Voltarei assim que puder.  sussurrei em seu ouvido. Abaixei e peguei minha
pequena malinha. Olhei para ele por um breve momento.  Adeus.  falei j de costas
descendo as escadas.

  Eu te amo.  ouvi dizer.




        85
                                 21 captulo
 Comeou a chover num trecho da estrada.

  Meu pai escutava uma msica instrumental baixinho, minha me estava dormindo e
eu estava me sentindo fraca por no poder decidir minha prpria vida. Eu me via 
beira do precipcio, onde meus sonhos e meus planos foram pisoteados e lanados no
fundo do abismo, nada mais fazia sentido, at o fio de esperana que eu estava
sustentando havia se acabado. Agora eu era como um pssaro preso em uma gaiola
impossibilitado de voar.

 Encostei meu rosto na janela, os pingos de chuva que deslizavam por ali
atrapalhavam minha viso juntamente com as lgrimas que brotaram dos meus olhos.

 Eu estava s mais uma vez.

  As feridas do passado voltariam a se abrir, eu tinha certeza disso. No existia luz no
fim do tnel, no existia ningum que pudesse amenizar a dor que eu estava sentindo.

 Devo ter passado o dia inteiro dormindo porque quando dei por mim j estava
escuro. Peguei meu mp3 e coloquei os fones de ouvido, mas ao vasculhar as msicas
a vontade de chorar voltou, tudo ali me lembrava Douglas e... tambm Deus.

 Percebi que meu pai me observava pelo retrovisor. Sequei os olhos de qualquer jeito
e virei para a janela.

  Quer conversar?  perguntou ele.

  Sobre...?

 Ele pareceu ter pensado muito antes de falar.

  No quero ver voc triste filha. O que te chateia?

 Parecia brincadeira ele falando aquilo, era to bvio que nem me dei o trabalho de
explicar.

  Adivinha.  falei.

 Pelo espelho vi seu constrangimento.

  Desculpa.  eu disse a ele.

  Tudo bem.

 Respirei fundo. Eu preferia no conversar, mas era melhor deixar clara a situao.

 Eu no queria ir embora, minha vida  bem melhor na minha cidadezinha, tenho
tudo o que quero l: amigos, amor, trabalho...  ele me interrompeu.

  E sua famlia?


             86
 Sempre entra a famlia na discusso... pensei.

  J tenho idade o suficiente para cuidar de mim, no acha?

 Vi o espanto trovejar em seus olhos, mas eu no achava nada de errado em minhas
palavras.

  O que foi?  perguntei, j que ele demorou a se manifestar.

 Acha mesmo que sua famlia no  importante?  Sua voz estava triste.

  Eu no quis dizer isso.

 Se acha que somos um peso para voc, siga sua vida do jeito que quiser ento, j
tem idade no ?  falou de forma spera.

 Fiquei olhando para ele sem ter o que dizer. Suas palavras, mesmo to simples,
haviam me magoado muito.

  E ento senti um mal estar terrvel, minha cabea parecia girar. Levei a mo ao peito,
meu corao estava opresso, as amarras das minhas feridas se arrebentaram e uma
torrente de sensaes torturantes apossou-se de mim.

 Era isso. Meus pais achavam que eu no me importava com eles. Durante todos
esses anos eu vivi sem perceber o mal que eu estava fazendo, a imagem que eu
passava para Edgar e Samantha. O que  pior do que saber que eu mesma sou a
causadora do meu prprio sofrimento?

 Ele me olhou com o canto dos olhos.

 T tudo bem? Vai ficar com dor nas costas encolhida desse jeito. Sente-se direito.

 Encarei-o por um momento.

 Eu ainda me sentia perturbada mas atendi a sua ordem. Sentei e tentei afastar,
mesmo com dificuldade, minha mente da realidade.



 O tempo continuava chuvoso ento meu pai resolveu parar na chcara da minha tia.
Edgar estacionou o carro dentro de um galpo que mais parecia um celeiro, eu e
minha me levamos para casa algumas coisas que usaramos naquele dia.

 H tempos eu vinha querendo ir para a roa, talvez consiga organizar melhor meus
pensamentos.

 Depois do almoo meu pai foi dormir, minha me foi ao mercadinho com minha tia e
o marido dela, eu e minha prima fomos caminhar, j que a chuva estava fina.

 Se eu me matar hoje a culpa  sua.  falei  minha prima, ela comeou a rir.



            87
 Agatha era muito diferente de mim. S morava com a me e o padrasto porque
ganhava tudo o que queria deles, faz o tipo manipuladora e, at o presente momento,
estava me dando conselhos errados.

 No esquenta com eles  Ela passou o brao em volta dos meus ombros enquanto
andvamos. , mais cedo ou mais tarde vo entender que voc s quer curtir a vida.

 No sei no, j conversamos tanto e nada deles me deixarem viver em paz.

  Relaxa!

 Ela segurou minha mo e ns corremos porteira afora.

 Fiquei sabendo que voc estava namorando  disse ela--, como ele se chama?

  Douglas.

 Ela olhou para mim, talvez estivesse me avaliando.

  O que foi?  perguntei.

 Agatha ergueu uma das sobrancelhas e deu um sorriso malicioso.

  E como ele ?  falou de forma indecorosa.

 Tente ignorar o que sua prima diz, ela no tem juzo. Lembrei do que minha me
me disse antes de descermos do carro.

 Um tanto assim mais baixo que eu  indiquei com a mo na altura de meus ombros
,  loiro dos olhos castanhos quase pretos. Tem... Pensei um pouco antes de mentir
mais  cabelo cacheado, usa culos e aparelho nos dentes.

 Um filhote de cruz-credo?  perguntou para mim, evidentemente no acreditando
em minhas palavras.

  , quer dizer, no. Ele  o amor da minha vida.

 J que est longe dele, acho que vai precisar de uma companhia, pelo menos para
uma noite,  disse-me, distrada. Eu mal acreditava no que estava ouvindo.  tenho
amigos muito bonitos por aqui, hmmm, e acho que um deles faz o seu tipo, ele se
chama Lo.

  No.

  O que disse?  Agatha virou-se para mim.

  No quero.

 Ela revirou os olhos.

 Qual  o seu problema, Agatha?  Eu j estava indignada com tamanha
indecncia.


        88
 Meu problema?  ela apontou para si   voc quem est recusando a minha
ajuda e eu  que tenho problema?

 Ajuda?! No v achando que sou igual a voc.  Dei meia volta e fui andando para
casa.

 Fala srio, Carolina.  gritou ela.  No vou chamar o garoto se no quiser.  Veio
correndo at mim.

  Acho bom.

 Ela riu.

 Anos atrs eu era assim, igualzinha a voc.  atreveu-se a dizer. Eu olhei para ela
quase a mandando calar a boca.  S tenho mais uma coisa a dizer. Deixa?

  O que ?  falei com raiva.

 Seu jeito vulgar voltou a aparecer.

  Voc no sabe o que est perdendo.




          89
                                22 captulo
 Passei o restante da tarde trancada no quarto onde meus pais dormiriam. Eu estava
ouvindo msica e folheando uma revista de meio ambiente. Queria estar preparada
psicologicamente para mais tarde porque eu iria dormir, infelizmente, no mesmo
quarto que Agatha.

  Minha me me chamou, deixei a revista e o mp3 em cima da cama e fui  sala de
jantar. Todos j estavam comendo ento fiz meu prato rapidamente e fui jantar na
cozinha. Depois voltei para o quarto, peguei minhas coisas e fui para o banheiro me
arrumar para dormir.

 Quando enfim me deitei, Agatha entrou no quarto falando ao celular. Percebi que
havia sinal e que eu poderia ligar para casa. Peguei meu celular e liguei, havia quatro
mensagens: Eu te amo, Douglas. Amiga, vc esqueceu uma blusa comigo, Miriam.
O q fao p/ o Pepino parar d chorar e ir dormir?, Douglas. S.O.S., Douglas.

 S ele para me fazer sorrir num momento desses.

  Al?  A voz de Douglas parecia cansada.

  Pensei que no te encontraria em casa, no foi ao culto hoje?

  Carol?

  .

 Meu amor, t tudo bem com voc? J chegou  casa de seus parentes? Estava
louco para ouvir sua voz.  Ouvi os latidos do meu filho.

 Fui para a varanda do quarto, minha prima falava muito alto.

 J estou com saudade de voc, quero ir para casa. Ns paramos na chcara de
uma tia, amanh continuaremos a viagem.

 Ele ficou quieto por um instante e quando voltou a falar sua voz estava falhando.

  Voc no vai voltar, no  mesmo?

  Pelo jeito voc tambm perdeu a esperana.

  Eu te amo muito, no se esquea disso.

 Tambm te amo. A bateria do meu celular est acabando tenho que desligar. Ah,
sobre o Pepino, deixa ele dormir no seu quarto, assim ele pra de chorar.

  T bom. A gente se fala outra hora. Boa noite, amo muito voc.

  Boa noite.

 Desligamos.


            90
 Coloquei meu celular no criado-mudo do meu lado da cama de casal.

   novo?  Agatha o pegou e sentou no meio da cama.

  No muito.  Deitei-me virada para a varanda e fechei os olhos.

 U?! Pelo jeito ele pintou e alisou o cabelo, tirou o aparelho e fez um tratamento
para crescer.

  Do que voc est falando?

 Ela me mostrou o celular com a foto de Douglas.

  Ah.  falei.

  Nem sabe mentir.

  Se no se importa, eu gostaria de dormir agora.

 Ela riu.

 Quem precisa dormir numa noite como esta?!  disse ela levantando-se e indo ao
guarda-roupa.

  Eu preciso.

  Agatha abriu uma gaveta e tirou de l um conjunto de pea ntima vermelha com
renda e colocou em cima de um ba no canto do quarto.

 Garota, eu tenho medo de voc!  falei voltando a fechar os olhos.



  Devo ter dormido apenas algumas horas. O cu no estava mais nublado e a luz da
lua entrava no quarto.

 Como eu queria conversar com Douglas de novo...

 Tateei o criado-mudo em busca do meu celular, deitei de barriga para cima e apertei
um boto do aparelho para lig-lo. A luz forte do celular iluminou a cama e percebi que
Agatha no estava deitada.

  O que ela est aprontando desta vez?

 Levantei-me, vesti meu hobby branco e fui  cozinha beber gua.

  No estava conseguindo dormir?  perguntou minha me.

  .  Peguei um copo e o enchi de gua.  Voc tambm?

  Sim, tem um som me atrapalhando a dormir.

  Som?


           91
  No est escutando uma msica?

  No.  respondi.

 Ela pediu que eu parasse de beber e tentasse escutar. Um som estava sendo
executado, mas bem longe.

  Deve ser algum vizinho fazendo festa.  falei.

 No,  ali.  Ela apontou para o celeiro que dava para ver pela janela.

  Agatha!  deixei escapar.

  O que tem ela?

  No est no quarto.  Eu disse j saindo da cozinha.

  Aonde voc vai? Me espere!



 Eu e minha me somos muito curiosas, no importava se o que estava acontecendo
era perigoso, nosso instinto de detetive nos obrigava a investigar.

  Samos no meio da noite para ir ao galpo que no ficava muito longe da casa. As
luzes fracas do lugar estavam acesas e alguns carros estavam estacionados do lado
de fora da porteira.

  Incrvel como eu no ouvi nada.  comentei.

 Aproximamo-nos da lateral do celeiro. De l vinha uma msica com letra picante e
alguns outros sons que no reconheci.

  Santo Deus!  disse minha me aparentemente horrorizada.

 Fui at ela e, pela fenda na madeira, pude ver uma das cenas mais repugnantes de
minha vida.

  Temos que tirar Agatha da depressa!  falei  minha me.

  Mas como?

 Olhei em volta e no vi nada que pudesse ajudar. Se entrssemos l com uma das
espingardas de meu tio ficaria cmico demais.

  Prefere acordar seu pai?

 No quero met-lo nisso. Voc podia fingir que vai pegar o carro.

 Voc acha que eu entraria a sozinha? Alis, eu nem sei dirigir.

 Uma das portas perto de ns se abriu e o ar pareceu denso e quente. Agatha veio ao
nosso encontro ajeitando a pequena e apertada blusa que estava vestindo.

       92
  O que querem?  perguntou com a maior naturalidade do mundo.

 Minha me estava boquiaberta, mas conseguiu se manifestar.

  O que pensa que est fazendo?  gritou ela.

 Aquilo me assustou, eu nunca havia visto minha to brava.

 Isso so modos?  continuou  Voc s tem 17 anos, no pode agir assim! Estou
muito desapontada com voc, est parecendo uma meretriz!

 S estou me divertindo, calma tia. Sei o que fao.  minha prima falava
tranquilamente.

 Sabe o que faz?!  Minha me andava de um lado para o outro.  O que  que sua
me acha disso?

 Agatha pareceu um pouco inquieta.

 O que ela tem a ver com a minha vida? Sabendo ou no, de que importa? Ela no
liga. E outra, o corpo  meu, fao dele o que eu quiser.

  Uau.  falei. Minha me me deu uma cotovelada.

 No deviam se preocupar.  disse Agatha sorrindo com o canto da boca.

 Olha aqui, moinha, se sua me  uma irresponsvel que no sabe cuidar de voc,
ns temos o seu pai que no vai gostar nada de saber o que voc anda fazendo.

 Deixa meu pai fora disso!  bradou ela. O rosto de minha prima comeou a ficar
vermelho de raiva.

  Agatha, no est certo o que voc est fazendo.  falei.

 Me diz ento o que  certo!  brigou minha prima.  Colocar um filho no mundo e
no dar o mnimo de ateno  certo? Por que  que sempre brigam comigo sendo
que minha me  culpada de tudo? Odeio isso, odeio!  Ela estava muito nervosa,
suas mos tremiam e sua voz comeava a ficar embargada.  Vai dizer que estou
manchando o nome da famlia com minhas atitudes?! Eu no me importo! Pelo menos
aqui  Ela apontou para o celeiro  as pessoas valorizam o que eu fao, eles gostam
de mim. J sei me cuidar muito bem, no preciso dos meus pais, se querem saber.
No preciso...  Ela comeou a chorar, seus joelhos vacilaram e ela se escorou na
parede at que se sentou no cho com as mos no rosto.

   Minha me foi at ela e a abraou. Mesmo vendo na TV pais que abandonam seus
filhos, eu no sabia que isso acontecia na minha prpria famlia. A situao da minha
prima era de dar pena.

 Por que esto fazendo isso comigo? Por que no me querem?  falou em prantos.

  Calma, querida, vai ficar tudo bem.  disse minha me.


         93
  E voc? Por que est fazendo isso? Eu no presto!

  Somos uma famlia, devemos cuidar uns dos outros.

 Fiquei com essas palavras em minha cabea, e durante todo o trajeto de volta para
casa fui refletindo sobre a atitude da minha me.

 Cuidar uns dos outros... ser por isso que me querem aqui?



 Agatha estava tomando banho e eu estava sem sono, deitei-me na cama e fiquei
olhando para a janela.

 A porta do banheiro se destrancou e minha prima saiu terminando de abotoar o
pijama. Ela deitou do outro lado da cama, mas parecia inquieta demais para uma
pessoa que pretendia dormir.

  Carol.  chamou tempos depois.

  Oi.

  Acordei voc?

  No, no, o que ?

  T a fim de conversar?

  Sobre o qu?

 Ela demorou um pouco antes de dizer.

  Como  gostar de algum?

  Hmm? No entendi a pergunta.

  O que sente quando est com o rapaz que voc gosta?

 Ah, sim  ajeitei o travesseiro , deixe-me pensar, depois te conto, t?

  Fechei os olhos para imaginar melhor. Em minha mente a imagem de Douglas
apareceu nitidamente, senti vontade de sorrir. Lembrei-me da forma educada como
falava comigo, do jeito doce de segurar minha mo, de como era lindo o seu sorriso,
de como era paciente para me ensinar sobre Deus, da maneira cuidadosa como me
tratava, do jeito delicado de me beijar, de como ficava bonitinho escondendo o rosto
em meu pescoo quando estava triste. Lembrei-me do calor do seu abrao, do aroma
de seu perfume, do carinho que fazia em meu rosto...

  Carol?

  Hmm? Oi.

 Ela riu.

        94
  Estava dormindo?  perguntou.

  No, eu estava pensando.

  J pode me responder?

 Claro. Bom... quando estou com Douglas, geralmente sinto meu corao bater
mais rpido, me d frio na barriga de vez em quando, j aconteceu da palma das
minhas mos soarem  Pela luz do abajur percebi que ela sorria  j gaguejei muito
at.  Ns rimos.

  Eu queria amar algum.  comentou distrada.

  Ah, mas antes de amar algum voc deve se amar.

  Posso tentar.

 Fiquei pensando por um tempo.

 Outra coisa, tem como vocs me levarem para casa do meu pai amanh?

  Claro,  caminho nosso.

 Certo, ento boa noite, vou ter de acordar cedo para arrumar minhas malas. 
virou-se para o outro lado, eu desliguei o abajur e fui dormir.




      95
                                23 captulo
 De manh seguimos viagem. A me de Agatha no fez nenhuma objeo  partida
dela.

 Embora houvesse mais uma pessoa no carro, o silncio insistia em tomar conta da
ocasio. Talvez os acontecimentos recentes no sugerissem uma conversa animada.

 Permaneci imvel, admirando a paisagem do lado de fora. Tudo me fazia lembrar a
minha pequena cidade, em cada detalhe da natureza sua imagem vinha em minha
mente.

  Carol, me empresta seu mp3?  Agatha me cutucou, afastando meus
pensamentos.

  Sim, claro.  respondi revirando o bolso do meu casaco.

  Gosta de ler?-- pegou o aparelho da minha mo.

  Aham,  um dos meus hobbies preferidos.  Sorri para ela.

 J leu O jardim secreto?

  No.  respondi pensando.

  um dos livros mais legais que j li, ganhei do meu pai no meu aniversrio de 15
anos.  Remexeu a mochila.  Quer ler?

 Peguei o livro e fiquei olhando a capa rstica e bonita. Dizem que no se deve julgar
o livro pela capa, mas pressentia que iria gostar muito.

 Agradeci a ela e iniciei a minha viagem por aquele livro desconhecido.

  A histria era encantadora, quanto mais eu lia mais vontade me dava de continuar
lendo. Infelizmente, quando eu estava no captulo sete ns chegamos  casa do pai de
Agatha.

 Acho que vou comprar esse livro,  muito bom.  eu disse a ela entregando a obra.

  Certo. Ah, venha me visitar algum dia, no esquea!

 Balancei a cabea positivamente.

                                          ...

  J havia duas semanas que eu estava com meus parentes, meu pai e minha me
resolveram ficar na casa de meus avs maternos at comprarem uma nova casa para
ns. Esta noite iria ter uma reunio familiar, meus tios e primos de cidades vizinhas
viriam para c.

 Todo mundo podia colocar roupa de ndio e ns faramos a dana da chuva.  falou
sorrindo o meu pai.
          96
 Minha me olhou feio para ele.

  T bom, no falo mais.

 Fui ao quintal da minha av, peguei um regador e fui encher de gua no tanquinho.

   Eu no queria e nem podia me acostumar com a vida que eu estava levando, nunca
iria conseguir voltar para casa se me conformasse com isso.

 Desliguei a torneira e quando me virei dei de cara com um primo meu.

  Que susto!

  Foi mal.  disse ele.

 Sa carregando com dificuldade o regador transbordando de gua.

  Quer ajuda?  perguntou-me.

  No, est tudo bem.

 Ele se sentou num banquinho improvisado em meio s flores.

  Se vov te ver sentado a vai matar voc.

 Ele riu.

  Que nada.  falou.

 Ficamos um tempo sem falar nada at que ele resolveu quebrar o silncio.

  Voc cresceu.  disse pensativo.

 Olhei para meu primo tentando entender a sua afirmativa.

 Costumvamos brincar aqui, e voc era deste tamanho.  Indicou com a mo
aproximadamente a um metro e trinta do cho.

 Parei de regar as plantas e me sentei fora do cercadinho do jardim.

  Eu no me lembro.  falei.

   porque nunca aconteceu.

 Voc no fala coisa com coisa, Caleb.  eu disse. Meu primo fez uma linha com os
lbios. Em qu est pensando?

 Ele demorou um pouco antes de responder.

 Nas coisas que poderamos ter feito mas no fizemos. Sempre penso nisso.

  Uau, que profundo!  brinquei.

 T falando srio, Carolina.  Ele veio sentar ao meu lado.  Costumo inventar
lembranas, coisas que eu gostaria que tivessem acontecido.
      97
  E para qu isso?

 s vezes para ter algo em que pensar  comentou distrado  mas geralmente 
porque eu me sinto s, as lembranas inventadas me fazem sentir mais prximos de
vocs.

 Acho que temos um problema pior que o outro.  Passei o brao em volta de seus
ombros.

 Ele riu um pouco.

  C'est La vie.  ( a vida) disse ele.



 A casa estava cheia. Os homens se reuniram perto da churrasqueira e as mulheres
na cozinha, meus primos e primas menores estavam na rua brincando.

 Como eu queria voltar a ser criana, no precisar me preocupar com nada... 
disse Agatha enquanto sentava na janela da sala.

 Para mim voc ainda  criana.  Caleb bagunou o cabelo dela.

 Falou o adulto.  Ela tentou bagunar o cabelo dele mas no conseguiu alcanar.

 Aproximei-me da janela, apoiei meus cotovelos e sustentei meu rosto em minhas
mos.

 Percebi Agatha trocando olhares com meu primo.

 Est triste Carolina?  perguntou Caleb passando um dos braos em volta de mim.

  No.

  Parece.  falou minha prima.

 Anime-se, hoje  meia-noite vov vai contar lendas sobre nossos ancestrais. 
disse meu primo com um sorriso brilhante no rosto.

  Srio?  eu e Agatha perguntamos juntas.

  Claro que no.  Ele riu.

  Idiota!  Minha prima deu um peteleco na testa dele.

  Ai, isso di!

   para voc aprender a no falar besteiras.

  Abaixaaa!  gritei.

 Ns trs samos rpido de perto da janela, um de meus primos havia chutado uma
bola de futebol em nossa direo, ela entrou em casa e quebrou um vaso de flores
carssimo da minha v.
     98
 Voltamos para a janela e encontramos a rua deserta. Ouvimos passos pesados pela
casa e uma voz estridente nos fez levar as mos aos ouvidos.

  Quem foi o pestinha que quebrou o vaso?  gritava minha tia.

  Ns no vimos.  disse Caleb teatralmente com medo.

  Apaream!  ordenou ela.

 Um a um meus primos foram saindo de seus esconderijos.

  Coitado.  deixei escapar.

 Minha prima malvada informou a minha tia o autor do chute e garoto foi arrastado
para dentro de casa em meio a tapas, cascudos e sermes.

  Ainda quer ser criana?  perguntei a Agatha.

  Eu nunca disse isso.

 Ns rimos.




      99
                                 24 captulo
 A reunio durou a noite inteira e de manh programaram um almoo em famlia. Eu e
Caleb ficamos encarregados de comprar os refrigerantes.

 Ande logo, eu quero voltar cedo para casa.  resmunguei enquanto batia na porta.

  Calma, estou terminando de me arrumar.  disse meu primo.

 Sa da frente do quarto e fui buscar a chave do carro do meu pai.

  J est pronto, Caleb?  falei voltando pelo corredor.

  Estou.  Ele saiu do quarto ajeitando o bon.

  Para que se arrumar tanto?

 Ele sorriu para mim, ento samos de casa.

  Onde est a chave?  perguntou-me quando chegamos  garagem.

 Quem foi que disse que voc vai dirigir?  Dei um sorriso torto para ele.

   guerra?

 Ri um pouco. Destravei as portas do Pajero e entrei no carro, meu primo ficou
olhando o automvel e depois entrou.

  Carro bacana.  falou.

 Regulei o retrovisor e a poltrona e depois dei a partida no carro.

 Tivemos que nos dirigir para a cidade vizinha porque o mercadinho da cidade dos
meus avs no aceitava carto de crdito.

  Que tdio.  reclamou ele.

 A estrada era asfaltada apenas em alguns trechos, havia rvores de todos os lados e
uma chuva fina estava caindo.

 Meu primo comeou a vasculhar as rdios e parou em uma que estava tocando
sertanejo.

  Gosta desse tipo de msica?  perguntei.

  No, mas  a sua cara.  falou srio.

 Eu ri.

 Em um trecho da estrada avistei uma senhora que carregava sacolas aparentemente
pesadas.

  D carona a ela.  disse Caleb percebendo que eu a olhava.

        100
 Dei r com o carro e parei ao lado da mulher.

  Quer carona, senhora?  Caleb perguntou.

  Ela prontamente aceitou. Meu primo a ajudou a entrar no carro e a mulher me
informou onde morava.

  Vocs so irmos?  perguntou.

  No. Primos.  Caleb respondeu.

 So muito parecidos.  comentou.   nessa entrada aqui.  indicou o caminho de
sua casa.

 Atravessamos uma ponte estreita e seguimos por uma estradinha de terra. A
senhora parecia morar no meio de um bosque. Sua casa era de tamanho mdio e
esquisita. Era suspensa, sustentada por pilares de madeira, era toda feita de madeira.
Embaixo dela havia uma escada que levava para a parte de cima.

 Estacionei o carro e ns trs fomos at a casinha com as sacolas.

 Subam, posso preparar caf para vocs.  disse subindo a escada.

 A casa por dentro era super arrumada e cheirava a flores, tinha poucos mveis mas
era uma gracinha.

 Mora aqui sozinha?  perguntei sentando-me na cadeira da cozinha enquanto ela
preparava o caf.

  Sim.

  Faz muito tempo?

 Um ano. Antes meus filhos moravam comigo, mas eles foram trabalhar fora do
pas.

 Entendo.  Olhei para o lado ao ouvir um barulho, vi meu primo mexendo em
alguns papis e revistas em cima de uma mesinha na sala.  Caleb!  o repreendi
olhando feio para ele.

 A mulher riu.

  Tudo bem, pode mexer.

 Meu primo pegou uma revista pequena, sentou-se no sof de pano surrado como se
estivesse em sua prpria casa e comeou a ler.

  Tem 25 anos mas parece uma criana.  comentei.

 A senhora arrumou a mesa para tomarmos caf, chamei Caleb para se sentar
conosco.

  O que ?  perguntei sobre a revista.
         101
  a revista da escola bblica dominical da igreja.  ela respondeu.

  Ah.

  Sobre o que est lendo, hmm, Caleb?  perguntou.

  A culpa humana e a graa de Deus.  Leu ele.

  E o que aprendeu?  disse a senhora bebendo caf.

 Existem trocentos tipos de culpa  Ele fez uma pausa, depois sorriu sem graa ,
me encaixo em quase todos os casos.

  Uau!  zombei.

 Ele me olhou feio.

  Voc no  santa, Carolina.  disse-me.

  Eu nem falei nada.  retruquei.

 A senhora deu um pigarro para chamar nossa ateno.

  E o que mais aprendeu?

  Ainda no terminei de ler.

 Deixa, eu continuo em voz alta.  Puxei a revista para mim  onde parou?

 Caleb apontou com o dedo a parte IV- Os efeitos da culpa.

 A culpa  um sentimento que exerce influncia de diversas maneiras: podemos agir
na defensiva colocando a culpa nos outros, negando nossas atitudes erradas,
procurando desculpas ou boas razes para justificar.  fui lendo devagar  Em outros
casos geram ansiedade, sentimo-nos inferiores, inadequados, inseguros, que so
meios de nos condenar.

 Quando parei de ler percebi o olhar da senhora sobre mim. Demorei-me um pouco
antes de fit-la, quando o fiz ela sorriu de forma doce acentuando as marcas da idade.

  Eu tenho esses sintomas.  Ri de nervoso.

  E como apagar esse sentimento?  perguntou ela.

 Busquei rpido com os olhos a resposta.

 Nos arrependendo.  acrescentei rpido.  Mas e se o que nos faz sentir culpa no
forem nossos prprios atos e sim o que outras pessoas fazem para ns?

 Ela me olhou pensando.

  Perdoe essas pessoas.  meu primo se manifestou.

  Mas eu j fiz isso.
         102
 A senhora balanou a cabea negativamente.

 Quando voc diz perdoar uma pessoa mas se lembra com tristeza o mal que ela
fez a voc  sinal de que no perdoou. Um exemplo: quando voc era pequena
queimou o brao com ferro bem quente, doeu muito e isso deixou uma cicatriz. Voc
cresceu, a cicatriz continua, voc olha para ela e se lembra do dia em que se queimou,
mas no di mais. Assim  o verdadeiro ato de perdoar. Entendeu?

  Sim.  eu e meu primo respondemos juntos.

 Fiquei um bom tempo refletindo. De fato eu no havia perdoado completamente
meus pais. Mas e se...

 E se a culpa  nossa, causada por ns mesmo, pedir desculpas a Deus vai apagar
tudo?  falei acanhada.

  s vezes.

 Fiquei confusa.

 s vezes s isso no basta, devemos desculpar a ns mesmos tambm. Porque
tem gente que costuma se condenar pelas falhas que comete, cobra coisas que no
esto ao seu alcance e quando no conseguem realiz-las se sentem fracassadas,
no admitem que ns, seres humanos, no podemos fazer todas as coisas, nem
agradar a todos. Com tudo isso voc consegue ver onde est errando?

  Consigo.  respondi de imediato.

 E o que pretende fazer?  Ela comia biscoitos enquanto conversvamos.

 Sorri para a senhora.

  Vou me perdoar e pedir desculpas aos meus pais de novo.

  Tenho uma dica: pea a Deus para te ajudar.

  Mas isso no  uma deciso minha?

 Nada  to fcil quanto parece. Se voc parar para analisar as reas da tua vida
que precisam ser transformadas talvez se sinta desanimada, mas Deus quer que voc
tenha uma nova vida. Pedindo ajuda e perseverana a Ele vai conseguir perdoar a si
mesma.

 Certo. Obrigada pelos conselhos.  Olhei o relgio em meu pulso.  Minha nossa,
est tarde!  Levantei-me acompanhada de Caleb. Estendi a mo para a senhora. 
At mais, hmm...

  Abigail.  respondeu apertando de leve a minha mo e sorrindo.

  Abigail.  repeti.  Foi um prazer conhec-la.

  Voltem sempre que quiserem.

         103
 Meu primo deu um abrao apertado nela e ns descemos as escadas.



 J era quase a hora do almoo e nem tnhamos comprado os refrigerantes.

  Eu e meu primo estvamos em silncio fazia um tempo, a msica que tocava na
rdio tinha uma letra triste que combinava com o cu cinza, as rvores secas da
estrada e as curvas sinuosas.

  Est tocando.

  O qu? -- perguntei.

  Seu celular.

 Segurei o volante com uma das mos e com a outra vasculhei o banco de trs em
busca do pequeno aparelho, como no consegui achar tirei o cinto de segurana para
procurar melhor.

 Cinco chamadas no atendidas li quando consegui pegar.

  Olha a pista, Carolina!  brigou meu primo.

 Rapidamente endireitei o carro, eu o estava jogando para a pista do lado sem querer.

 A estrada estava cheia de carretas. Eram enormes, em sua maioria carregavam
madeira, isso deixava o trnsito lento.

 Odeio quando faz isso.  resmungou meu primo enquanto eu seguia uma fila de
carros ultrapassando um caminho.

  Se eu esperasse, s voltaramos para casa amanh.

  Eu no podia nem acelerar direito que Caleb me passava um sermo. J estava me
irritando.

 Sabe quantas vezes voc ultrapassou? Cinco! O que custa andar a 80 km/h? Mas
no, voc insiste em andar a 110 km/h!

  No est satisfeito? Desa do carro e procure carona!

  perigoso sabia?! E voc nem est usando cinto de segurana.  Ele cruzou os
braos.

 Esqueci de recolocar, s isso.  falei tentando encaixar o cinto.

 Droga, tinha que dar problema logo agora?!

 Olhei no retrovisor, e como no havia carro nenhum usei as duas mos para tentar
colocar o cinto.

  L vai ela fazer arte de novo.

        104
  D para parar de me encher a pacincia e me ajudar?

 Meu primo revirou os olhos e tirou o cinto de minhas mos. Tentei ajud-lo mas no
deu certo ento resolvi voltar a dirigir.

  Meu Deus!  falei sem flego.

 O carro estava prestes a bater na traseira de um caminho.

 Meu primo soltou o cinto e colocou o brao em frente ao rosto. Manobrei o carro para
a pista do lado, mas fomos atingidos por uma carreta e jogados num morro depois do
acostamento.

 De repente tudo estava girando muito rpido e eu senti uma forte dor no rosto perto
da sobrancelha. Minha blusa estava ficando molhada.

 E ento eu estava no cho. Meu corpo doa muito e de longe ouvi a voz do meu
primo gritando meu nome.

 Minutos depois vi um vulto mancar em minha direo, pisquei os olhos, foi tempo
suficiente para Caleb se debruar sobre mim.

  Carolina, consegue me ouvir? Fala comigo Carol!  suplicou.

 Eu sentia o gosto de sangue em minha boca, minhas vistas estavam cansadas e
minha audio j no parecia to boa, os gritos desesperados do meu primo no
passavam de barulho de sino para mim.

 Tentei abrir os olhos mais uma vez.

 Carol?  disse como se estivesse sussurrando  Me perdoe por ter brigado com
voc.  Seu rosto estava molhado pelas lgrimas e com arranhes.

 Eu...  No consegui terminar a frase, minha garganta ardia muito.

 Ele colocou a mo em meu rosto e o acariciou.

 A ajuda j est vindo, tente ficar acordada... Por favor.  Ele deve ter percebido
minhas plpebras se fechando. Aproximou o rosto  No, no, no durma Carol.

 Senti minha mente se distanciando e meu corpo ficando dormente.

 Estava escuro.




        105
                                 25 captulo
  Eu tinha plena conscincia de que fui levada para sala de cirurgia, eu ouvi as
palavras de consolo para minha me, o tumulto dos enfermeiros e o barulho das
rodinhas da maca.

  Depois de mais um tempo dormente a minha mente acordou, eu no sentia dor
nenhuma, mas no conseguia me mexer, isso me deixava agoniada, talvez por essa
inquietao meu corao tenha comeado a acelerar, o que preocupou as pessoas
que me operavam.

 Pela primeira vez senti medo.

 Se eu morresse agora para onde eu iria? Eu no tinha certeza.

 No creio ser a pessoa mais indicada para ir aos cus. Apesar de acreditar em Jesus
Cristo, nesses ltimos dias no fui uma verdadeira serva. Duvidei que Ele pudesse me
ouvir, que estivesse comigo, no falei do Seu amor para as pessoas ao meu redor,
nem ao menos mostrei que sou diferente, tomei atitudes imprudentes, respondi sem
pensar.

 Como fui inconsequente! Agora no tem mais volta, estou perdida!

 Fizeram massagem cardaca em mim.

 Senhor, proteja minha alma! supliquei.

 medida que eu sentia meu corpo se desligando eu clamava ainda mais, eu no
queria ir antes de pedir desculpas aos meus pais, se eu pudesse fazer ao menos
isso...

  Tenha misericrdia de mim, Senhor, no permita que meu esprito se v antes que
eu desfrute de Seu amor e Sua bondade. Perdoa-me Deus, por no ter feito tua
vontade, arrependo-me por no ter vivido como tu queres, perdoa-me por no ter
entregado minha vida em Suas mos desde o princpio, perdoa-me por no ouvir Tua
voz quando falava comigo, perdoa-me por no ter feito a diferena em meio s
pessoas, perdoa-me por s agora perceber o quanto sou pequena diante da Sua
soberania e majestade,  Senhor, perdoa-me por no saber orar, Eu pedia enquanto
tentavam me manter viva muda meu corao Deus, quero viver em adorao a Ti,
preciso de Tua mo sobre mim, tire de mim tudo que no te agrada, permita-me estar
em Tua presena todos os dias, e se for da Tua vontade que eu morra que eu possa
estar perto do Senhor no cu.

 Senti que algum estava comigo, eu j no tinha medo. Sua presena me inundava
de paz e de Sua voz vinha rios de amor e vida.

 No temas, estou contigo Ele dizia. Suas vestes eram brancas e em suas mos
estavam as marcas do sacrifcio maior feito na cruz para salvar a humanidade.



       106
 Como um pai abraa um filho, Ele me acolheu em seus braos. As feridas da minha
alma foram curadas e meus pecados foram perdoados.

 Abra meus olhos, quero ver Tua glria, Senhor, pedi. Eu j no queria viver, meu
desejo era estar com Ele nesse momento. Seu amor completava a minha vida, eu
queria cantar em honra a Seu Santo Nome eternamente.

 A ti dou o controle da minha vida, Jesus.

 Eu te amo, filha, disse-me.

                                          ...

 Quando abri os olhos estava num quarto do hospital. O relgio marcava 23h05
horas. Em minha memria a imagem do acidente ainda estava bem ntida.

 Ouvi algum se ajeitar na poltrona ao lado de minha cama. Virei o rosto e vi Douglas
dormindo.

 Fiquei observando, feliz. Era a primeira vez em que eu o via dormindo, era a
criaturinha mais linda do mundo. Meu corao por ele batia com mais intensidade
agora do que em qualquer outro momento. Agradeci milhares de vezes a Deus por ter
me presenteado com a vida dele, e agradeci ainda mais por ele ser a primeira pessoa
que eu vi depois da transformao da minha vida.

 Eu queria acord-lo para lhe contar a novidade, mas seria maldade, ento esperei
acordada, parecia que eu havia dormido por 100 anos.

 Em um momento da noite Douglas acordou e saiu do quarto. Eu havia me
desacostumado a falar ento quando fui tentar cham-lo no saiu som de minha boca.
Fiquei um pouco chateada por um instante, mas quando ele voltou com um copo eu
me animei de novo.

 Ele pareceu no perceber que eu tentava me levantar a todo custo, ajoelhou-se ao
meu lado no cho e comeou a orar baixinho. Eu desisti de levantar e fiquei ouvindo.

 Senhor, me ajude a conhec-Lo mais para que eu possa compreender seus
planos. Coloco em Tuas mos a minha vida, faz de mim o Teu querer. Te peo, Deus,
que estejas com a Carol, acorde-a, Senhor, no permita que ela fique nesta situao
para sempre.  Ele estava chorando, e eu estava confusa   Deus, me ensine a ter
f, quero confiar em Ti completamente. Em nome de Jesus, amm.

 Quando terminou de orar ele bebeu a gua, virou-se e encostou as costas na cama
sentando-se no cho.

 Levantei minha mo para ver se estava tudo bem com meu corpo, eu tambm
conseguia sentir minhas pernas.

 O que aconteceu de errado?

 Douglas saiu do quarto de novo levando o copo.

        107
 Ser minha voz? pensei.

 Tentei tossir e forar o som a sair. Estava fraca ento comecei a cantar para
exercit-la.

  Amado Salvador, s meu tudo! Meu motivo, minha razo de viver.

 Comecei a rir. Eu pretendia matar Douglas de susto?

 Busquei em minha mente alguma msica bonita e que combinasse com meu tom de
voz. Ento comecei a cantar Oceans will part, da minha banda preferida.

 Vi que a maaneta da porta estava girando, meu corao comeou a acelerar e eu
cantei com mais vigor. Douglas parecia hesitante, com a luz do corredor pude ver que
estava assustado e maravilhado ao mesmo tempo.

  Carol?

 Terminei a primeira parte da msica enquanto ele vinha at mim com passos
vacilantes. Abri os braos e ele me abraou forte fazendo-me sentar na cama.

 Voc no sabe o quanto senti sua falta.  disse-me molhando meu ombro com
suas lgrimas.

 Eu te amo Douglas, muito, muito.  Eu fazia carinho em seus cabelos.

 Tambm amo muito voc!  Ele me endireitou e se sentou de frente para mim
segurando minhas mos.  Por favor, no faz mais isso comigo...

 No vou sofrer mais nenhum acidente por enquanto, pode deixar.  Sorri.

  No  disso que estou falando, meu amor.

  O que  ento?

 Ele secou o rosto.

 Fazia um ms e meio que estvamos longe, isso foi uma tortura para mim.

 Fiz carinho em seu rosto.

 Me desculpe, mas  que a culpa no  minha  Imediatamente me lembrei do que
Abigail havia me ensinado. Balancei minha cabea como se isso desfizesse minhas
palavras. , quer dizer, eu... confesso que no agi muito bem como namorada, eu
deveria ter insistido um pouquinho mais com meus pais, sinto muito por t-lo feito
passar por maus bocados.

 Ele olhou para a janela depois para mim.

Tudo bem, t desculpada -- disse com um meio sorriso no rosto , mas...  Sorriu
de verdade desta vez.  vai ter de contar todos os detalhes da sua viagem.  Douglas
se levantou e deu a volta na cama vindo se deitar ao meu lado.

       108
 Deitei-me tambm e segurei sua mo depois de ajeitar o travesseiro e me cobrir
direito com o lenol.

 Antes voc pode me dizer o que tenho ou tinha? No entendi direito qual  o meu
problema.

 Ele colocou uma mechinha do meu cabelo detrs da minha orelha.

 Voc ficou em coma durante trs semanas, seu acidente foi grave.

  Como est meu primo?  perguntei preocupada.

  Est bem agora, ele havia quebrado o p.

 Que sorte.  falei pensando. Do nada me deu uma crise de tosse.  Pode pegar
gua para mim?  perguntei quando consegui parar.

  Claro.  Deu-me um beijo na testa e saiu do quarto.

 Vasculhei o quarto com os olhos, devia ter alguma roupa minha em algum lugar.
Avistei um pequeno armrio perto da janela, fiz fora com as pernas at chegar l.

 Quando consegui, Douglas entrou no quarto.

  O que est fazendo, amor?

  Estou querendo saber se tem roupas por aqui.

 Ele me entregou o copo e destrancou o armrio enquanto eu bebia a gua.

 Sua me deixou este vestido.  Mostrou-me um vestido verde soltinho.  Alis,
tenho que avisar aos seus pais e ao mdico que voc acordou.

 Ainda no  disse rpido. , depois voc conta, agora no.

 Entreguei o copo a ele e peguei o vestido. Douglas saiu do quarto para eu me trocar.

 Afastei as cortinas da janela e fiquei olhando o cu estrelado.

 Em pensar que eu nunca mais veria isso...

 Fiquei ali distrada por um bom tempo e nem tinha percebido as batidas na porta.

  Por que no trocou de roupa?  Veio at mim.

  Esqueci.  falei dando um risinho.

 A enfermeira que fica perto do bebedouro j est olhando feio para mim de tanto
eu buscar gua.  Ns rimos.

 Ele se sentou na beirada da cama de frente para a janela enquanto eu me trocava
perto da porta.

  Pretende ir a algum lugar?  perguntou ainda de costas.
           109
 Acha mesmo que vou ficar at de manh nesse quarto? No mesmo! A noite est
linda  falei indo at ele , quero sair por a  Sentei ao seu lado, quer sair comigo?

 Douglas deu um lindo sorriso.

 Claro, ser uma honra! Mas tem que ser escondido, e s 6 voc tem que estar aqui
de volta.

 Esbocei minha melhor carinha triste. Ele me fez ccegas.

  Isso  golpe baixo.  falei morrendo de rir.

 Sorriu para mim e parou com as ccegas. Joguei-me para trs e ele se deitou
apoiando um dos cotovelos na cama e o rosto na mo.

 Adoro ver voc sorrindo.  eu disse a ele tocando de leve seu rosto.

 No muda de assunto.  falou. Eu ri.  Vai ser uma espcie de operao
Cinderela, se no voltar na hora marcada algo de ruim vai acontecer.

  O que aconteceria?

 Pensariam que eu te raptei a colocariam a polcia atrs de mim.  Ele parou de
falar e olhou para a porta.  Vem vindo algum.

  Levantamo-nos rapidamente, eu me deitei na cama e Douglas me cobriu com o
lenol at o pescoo. Instantes depois algum entrou no quarto.

 Eu estava muito curiosa para saber o que se passava, mas no me atrevi a abrir os
olhos.

 Depois de um tempo ouvi algum deixando o quarto, e ento Douglas segurou minha
mo.

  Vem.  chamou-me.

 Fui para perto da porta com ele.

 Vou distra-la, quando eu der o sinal voc sobe as escadas de emergncia, t
bom?

 Acenei com a cabea.

 Ele saiu do quarto e foi ao bebedouro que ficava ao lado. Eu o ouvi conversando com
algum e depois fingir tossir.

 Sa rpido do quarto e fui at o final do corredor sem fazer barulho. Depois ouvi
passos rpidos, ento subi correndo as escadas.

  Carol?  Douglas me chamou no escuro.

 Aqui.  respondi abrindo a porta que dava para o terrao e indo para fora.


           110
 A brisa suave balanou meus cabelos quando me aproximei do parapeito. Olhei para
baixo e senti um pouco de vertigem. Era realmente alto e dava at para ver boa parte
da cidade dali.

 Douglas passou os braos em volta de mim. Aconcheguei-me em seu abrao e
apoiei minhas mos sobre as suas.

 Eu me sentia viva novamente.

 Em meu corao ardia uma chama que jamais se apagaria. Algo surpreendente
havia acontecido comigo, mesmo sabendo das dificuldades pelas quais passei e que
ainda passaria, eu estava feliz. O Criador do Universo estaria ao meu lado guerreando
e me ajudando a vencer as batalhas dirias.

 Eu descobri, amor.  falei sorrindo, soltando-me de seus braos.

  O qu?

  Os planos.




        111
                                  26 captulo
 Estvamos sentados com as costas na mureta, conversando.

 S pensei nesta hiptese, no tem outro motivo para Deus ter me trazido para c a
no ser para a restaurao da minha alma.

  Poderia ter sido mais fcil.

 No existe vitria sem luta, muito menos restaurao sem sacrifcio, amor.

 Ele sorriu e me abraou.

  Estou muito orgulhoso de voc!

 Dei um beijo em seu rosto e encostei a cabea em seu ombro.

 Apesar de ter sido difcil para ns dois, acho... Melhor, tenho certeza que foi
importante minha vinda para c. Eu aprendi coisas valiosas aqui.

  O que por exemplo?  Douglas fazia carinho em meus cabelos.

 A famlia  importante por ajudar na formao do carter do filho e tambm  de
onde deve vir o amor e o cuidado. Tambm aprendi sobre culpa, foi aqui que eu me
reconciliei com Deus e comigo mesma, e na primeira oportunidade que eu tiver vou
me desculpar com meus pais.  Pensei um pouco.  Outra coisa  Levantei a cabea
de seu ombro para olh-lo , descobri que sou completamente apaixonada por voc. 
Sorri para ele.

 Ele retribuiu com um sorriso luminoso.

 Estendi a mo e toquei seu rosto. Por mais que eu tentasse, no conseguiria
descrever o que sentia ao estar com ele, talvez seja isso que todas as pessoas que
encontram seu par perfeito sentem.

 Notei que meu corao acelerou e meus pensamentos foram afugentados.

 Ele me beijou.

 Senti-lo to perto me dava a sensao de leveza, carinho e liberdade. O tempo que
eu passava com Douglas era o mais agradvel possvel e eu sentia a cada momento
que ele me complementava.

 Sei que posso parecer precipitado mas...  Ele segurou minhas mos e me olhou
nos olhos.  Carol, eu te amo mais do que voc possa imaginar, eu daria tudo para
estar com voc, agradeo a Deus todos os dias por ter me permitido te conhecer. E...
 Ele parecia muito nervoso, suas mos tremiam um pouco. ... droga!  Seu relgio
comeou a apitar.

 Foi muito cmico! Seu rosto queimava, ele tentava a todo custo abafar o som do
aparelho com as mos.

       112
  Me desculpa, me desculpa.  disse-me.

  Que isso, amor, no  culpa sua.  falei sorrindo.

 Ele se irritou com o relgio, arrancou do pulso e jogou para trs.

 Meu queixo pendeu e eu olhei pasma para ele. Percebendo o que havia feito,
Douglas se levantou num s impulso, eu o acompanhei e pude ver os momentos finais
do relgio quando este se arrebentou na calada que dava para frente do hospital.

  Opa!  deixei escapar.

 No importa.  disse-me aps um suspiro. Virou-se e ficou olhando srio para a
porta.

 Hmm  tentei puxar assunto , no fica assim no,  s um relgio.

 Ele me olhou com o canto dos olhos depois abaixou a cabea.

Ok! Era um relgio de estimao... a gente arranja outro pra voc, t?  Entrei na
sua frente e me abaixei um pouco para que me olhasse.

  No  isso...

  Era presente?  Endireitei-me.

 Carol.  falou triste levantando o rosto.  No estou chateado pelo relgio.

 Esperei.

 Voc no prestou ateno no que eu estava falando antes do alarme disparar? 
disse baixinho.

  claro que prestei pensei me diz de novo!

 ... aham.  falei.

 Ele virou o rosto para o lado, chateado.

 Ai no!

 Ah amor, fala o que ...  disse com jeitinho. Levei o brao em sua direo e
acariciei seu rosto.

 Douglas olhou para o cho e depois para mim, ento deu um sorrisinho tmido.

T, t bom.  disse. Pareceu pensar um pouco, depois pegou minha mo com
delicadeza.  Carolina, voc  a mulher mais preciosa do mundo para mim, hoje sei
que sou o homem mais feliz do planeta porque te tenho.  Ele riu um pouco, talvez se
lembrando de algo.  J disse que te amo hoje?  Comecei a rir e o abracei.  Eu te
amo muito  disse em meu ouvido , e repetirei essa pequena frase at os batimentos
do meu corao cessarem. Nunca pensei que amaria tanto algum como amo voc. 


         113
Meus olhos j estavam molhados. Ele segurou meu rosto com as duas mos.  Eu
preciso de voc, Carol, sempre, te quero para sempre. Quer se casar comigo?

 Eu no sabia se chorava ou sorria. Nunca imaginei que isso aconteceria comigo um
dia, ser escolhida por algum... ter meus sentimentos correspondidos. Como  bom se
sentir amada.

  claro que quero!  respondi sem hesitar   o que mais quero!

 Ele me encheu de beijinhos e me abraou forte.

  Amo voc Douglas.  falei sorrindo.



 Voltamos para o quarto e ele chamou a enfermeira.

 Depois o mdico me deu alta e meus pais j estavam a caminho.

 Quando posso contar a eles?  perguntei. Estvamos saindo do quarto para
esperar na recepo.

  Quando quiser.  sorriu.

  Ainda hoje ento.

 Levou uns 15 minutos at Samantha e Edgar chegarem. Ouvi a voz de minha me e
me levantei da cadeira.

  Filha!  Correu at mim e me deu um abrao apertado.

  Me desculpe por preocup-la mame.

 No faz mal  Afastou-se para me olhar e segurou minhas mos  o importante 
que est bem agora.

 Meu pai passou o brao em volta dos meus ombros.

  Que susto nos deu, heim?!  Deu-me um beijo na testa.

 Sorri um pouco envergonhada para ele.



 Meus pais e Douglas estavam hospedados na casa dos meus tios, pais de Caleb e
Melissa, sua irm de 12 anos.

 Carolina!  Caleb me abraou ao abrir a porta.  Voc est tima!  comentou me
avaliando.

 Dei um risinho acanhado.

  Entrem.

      114
 Chegamos mais ou menos s 06h10 na casa, tomamos caf da manh e ficamos
papeando at o horrio do almoo.

  Pai, vamos comer fora?  pediu minha prima.

  Querem?  Meu tio perguntou a ns.

  Sim/Aham.  respondemos ao mesmo tempo.

  Minha me me pediu ajuda para escolher uma roupa. A cidade era praiana e exigia
roupas leves devido ao intenso calor.

  Que tal este?  Mostrou-me um vestido amarelo.

  Eu prefiro este branco.

 Ela olhou os dois vestidos.

  O azul ento.  falou.

 Liguei o ventilador de teto e me deitei na cama esperando ela trocar de roupa.

 Depois de feito, ela sentou na beirada, ao meu lado.

  O que aconteceu?  perguntou.

  Hmm?

  Voc parece feliz.

 Eu ri.

  Queria que estivesse triste me?  Sentei-me.

 No, no.  que de vez em quando voc fica diferente. s vezes t muito abatida,
outras vezes est muito feliz, isso  estranho.

  Prometo que s vai me ver feliz agora.  Sorri.

   por causa do seu namorado?

  Noivo.  respondi triunfante.

 Seus olhos se arregalaram e um sorriso enorme brotou.

 Parabns, filha, fico muito feliz por voc. Minha filha vai se casar, vai se casar!!!
Seu esprito adolescente apareceu.  Me conta t-u-d-o! Como foi, onde foi, o que voc
sentiu, qual foi a reao dele quando voc disse?  Bateram na porta  Sim?

  S faltam vocs duas.  disse meu pai.

 J vamos.  falou minha me. Ela virou para mim.  No conte a seu pai 
Levantou-se. , deixe que eu conte.


            115
  T.  falei rindo.

 Fomos almoar num restaurante em frente  praia.

 Minha me estava toda empolgada, fazia de tudo para me agradar e quando meu pai
perguntava o que estava acontecendo ela fazia cara de ofendida e dizia nada, nada
no.

  O que deu nela?  perguntou Douglas ao meu ouvido.

  Contei do noivado.

 Ele riu baixinho.

  Entendi.

 Dei um beijo em sua bochecha.

 Passamos a tarde toda na praia e  noite faramos uma pequena festinha em
comemorao aos 30 anos de casados dos meus pais.

 Consegui fugir da sala de jantar depois de arrumar a mesa e chamei Douglas para ir
comigo ao terrao, que mais parecia uma sala de estar. Levei junto um rdio pequeno
e uma coleo de CDs da minha me, os chamados Love songs.

 O que quer fazer?  perguntou a mim se sentando ao meu lado no sof.

  Danar.  disse olhando as msicas.

 Ele riu um pouco.

  Acho que no sou muito bom nisso.

 Sorri.

 Liguei o rdio a uma tomada, coloquei o CD e escolhi a faixa intitulada I will be here.

 A msica era suave e extremamente relaxante, sem falar na letra belssima.

  Por favor...!  pedi estendendo a mo em sua direo.

 Ele aceitou de imediato, levantou-se e me enlaou pela cintura. Passei os braos em
volta de seu pescoo e deitei de leve com a cabea em seu ombro.

 Lentamente fomos dando alguns passinhos acompanhando o ritmo da msica.

 Me lembrei do dia em que nos conhecemos  disse-me , fui  sua casa de
propsito, ns no costumamos entregar o carto da empresa de porta em porta. 
deu uma risada quase sem som.

 Eu quase havia me esquecido daquele dia.  Parei para olh-lo  Como assim de
propsito?

 Ele olhou para o lado oposto e sorriu.
            116
  Me explica?  pedi.

 Eu j havia notado voc algumas vezes, mas a primeira foi numa banca de revista,
a nica que vende revistas de meio ambiente.  Ele ia contando devagar.  Voc
estava linda naquele dia  Sorriu para mim , e eu no pude deixar de ouvir a
conversa que estava tendo com a senhora dona da banca, voc disse que gostava
muito de flores e tal. Depois daquele dia eu sempre me lembrava de voc quando via
uma violeta.

  Srio?!  falei.

 Um dia eu descobri onde voc morava, a depois do trabalho tomei coragem e fui a
sua casa com aquela desculpa boba da empresa de jardinagem  Ele riu e eu o
acompanhei, rindo tambm.

 Eu nem percebi isso na hora, devia estar distante em meus pensamentos, como
sempre... falei de forma vaga.

  Como agora.  disse encostando a testa na minha.

 Naquela poca eu pensava demais, isso me atrapalhava muito porque sempre
achava motivos. Motivos para ficar triste, para dor, para que as pessoas no
gostassem de mim, e ao mesmo tempo eu buscava algo para se opor a eles. Meu
interior vivia numa guerra constante.

 J passei por isso uma vez, sei como  ruim. Uma briga consigo mesmo...

  Mas...  falei sorrindo  estou beeem melhor agora.

 Ele sorriu e me levou para o sof.

  Me conta o que voc achou de mim quando me conheceu?  pediu.

 Pensei um pouco.

 Te achei muito simptico e adorei seu jeitinho engraado de ser  Ele me ouvia
atentamente , a minha primeira impresso de voc foi que era uma pessoa bastante
agradvel. E  Tentei lembrar as minhas cenas preferidas  eu adorava seu sorriso,
seu rosto corando  Voltei a olh-lo , e seu perfume.  magnfico!

 Douglas deu gargalhada disso.

 Eu gosto quando voc brinca com algumas mechinhas do meu cabelo, quando
beija meu rosto, quando olha para mim com carinho  eu dizia vagarosamente,
lembrando-me das vezes que ele havia feito essas coisas. Douglas estava sentado de
frente para mim e na medida em que eu ia acrescentando um item seu sorriso
aumentava.  quando segura minha mo, quando me abraa, gosto tambm quando
est sentado ao meu lado mesmo sem dizer nada. Voc  perfeito, meu amor.

  Gosto quando diz isso.

  O qu?
      117
  Meu amor.

 Sorrimos um para o outro.

 A msica j tinha acabado e outra estava tocando. Ao longe ouviam-se as conversas
de meus familiares. Fui me sentar mais perto de Douglas, repousando a cabea em
seu peito, ele me abraou.

  Enfim... paz.  falei baixinho.

 Ficamos um bom tempo em silncio, eu gostava de ficar pertinho dele, me sentia
segura.

 Mas ento quando levantei o rosto percebi que ele estava srio, parecia que estava
pensando em algo doloroso.

  Algo errado?  Sentei direito.

 Ele acenou positivamente.

 Olhamo-nos por alguns instantes antes de eu voltar a falar.

  Quer conversar sobre isso?

 Ele abaixou a cabea, depois mexeu um pouco nos cabelos.

 Carol, me desculpa, eu queria poder ficar aqui com voc, mas meu tio precisa da
minha ajuda na loja. Ele me olhava com tristeza.  Eu me lembrei deste detalhe
agora a pouco, ento amanh cedo vou voltar para casa. Desculpe-me mais uma vez.

  Tudo bem, eu entendo...  Tentei sorrir.

 Ele me olhou um pouco.

 Vem c.  Abriu os braos, ento o abracei.  Eu te amo muito!

  Eu tambm...




      118
                                   27 captulo
 Meus pais estavam super felizes por completarem mais um ano. Juntos. Eu estava
contente por eles, quem me dera ter a mesma sorte.

 Fiquei ouvindo, sem prestar muita ateno, a declarao de amor que meu pai fazia
 minha me. Todos  minha volta vibravam de animao, no  toa, casamentos hoje
em dia esto durando to pouco...

 Eu achava linda a vida a dois, mas por que a minha devia ser to cheia de
despedidas, desencontros e distncia?

 Quer danar?  Douglas me perguntou quando colocaram uma msica romntica
no rdio.

 Olhei-o me desculpando, ele entendeu. Deu-me um beijo na bochecha e foi at
Melissa aceitar o pedido que ela havia feito a ele para danar.

 Sentei-me em uma poltrona num canto da sala, enquanto meus tios, meus pais,
Douglas e Melissa danavam.

 Est chateada Carolina?  Caleb me perguntou vindo se sentar no brao da
poltrona com um copo de refrigerante na mo. Seu cabelo estava cortado um pouco
mais curto que de costume, mas bagunado como sempre. Estava usando um
perfume muito bom.

  No.

  Deveria aprender a mentir melhor.  Deu um sorriso brilhante.

 Ns olhvamos os pares danando no meio da sala.

  Quer danar?  perguntou virando-se para mim.

  No, obrigada por perguntar.

  Voc devia ser mais aberta a propostas tambm.

 Ignorei.

  Se fosse ele  disse de m vontade  voc aceitaria.

 Qu??

 Olhei-o pasma.

  Acha mesmo que eu no aceitei por que voc pediu?

 Ele acenou com a cabea concordando.

 Eu tambm no aceitei o pedido de Douglas, se quer saber. O que h Caleb?

 Foi a vez de ele de me ignorar.
      119
 Eu s queria danar com algum que no fosse minha irm.  falou tempos depois.

 Revirei os olhos.

  T certo, eu dano com voc.

 Levantei-me.

 Ah... mas agora no t a fim  Colocou o copo quase vazio em cima da mesinha ao
lado, e fingiu no me ver parada em sua frente.

  Deixa de ser infantil, Caleb.  resmunguei.

 Deu um sorriso vitorioso e se levantou abotoando alguns botes da camisa social
que estava usando. De p ele parecia ter quase o dobro do meu tamanho.

 J que insiste...  Segurou minha mo e me levou para o meio da sala.

 Depois de dar alguns passinhos de dana, ca em mim e tive medo de que Douglas
no gostasse daquela situao. Ento comecei a explicar isso a meu primo.

 Qual , Carolina?! O cara  adulto, acha mesmo que ele vai se importar com uma
daninha boba? No t fazendo nada de errado.  falou.

 Preferi no esquentar a cabea e acreditar no que meu primo falou. Mas quando
olhei para o lado minha me me encarava sria, com as sobrancelhas unidas.

 Hmm, Caleb acho... que vou  cozinha.  Tirei as mos rapidamente de seus
ombros, mas ele no me deixou ir.  O que  desta vez?  Cruzei os braos.

 Seria muito pedir que esperasse a msica terminar?  falou bastante educado.

 Coloquei as mos em frente ao rosto.

  Est querendo arranjar problema para mim?  perguntei.

 Carolina  Ele tirou minhas mos do rosto para que eu o olhasse , eu tive
oportunidades para fazer o que eu quisesse, mas no fiz. Acha mesmo que eu
ultrapassaria algum limite agora que seu namorado est aqui?

 No quero fazer com que ele se sinta mal na sua casa. Eu no gostaria que
Douglas me fizesse sentir cimes, ento no vou fazer isso com ele.  Soltei-me de
seus braos.  Com licena.

 Fui para o interior da casa. Abri o armrio da cozinha para pegar um copo e quando
me virei dei de cara com meu primo, muito srio e de braos cruzados.

  Que susto Caleb.  disse, desviando-me dele para pegar gua.

 Olha, Carolina  falou  me desculpe por estar forando a barra com voc. No sei
o que deu em mim hoje.  Encostou-se na parede.

 Tudo bem.  Coloquei o copo na pia  So os hormnios  brinquei.
         120
 Ele riu baixo.

 Voc  minha prima preferida, sabia?  disse um tanto tmido.

 Ah, deve ser porque sou simptica, inteligente, sexy... modesta  Comecei a rir.

... deve ser.  Sorriu. Ele levou o brao em minha direo com o dedo mindinho
estendido  Amigos de novo?

 Correspondi o gesto.

  Certo.

 Ouvi passos no corredor, quando fui ver quem era meu primo me abraou forte.

  Me solta seno te mordo!  falei entre dentes.

 Deu-me um beijo barulhento na bochecha .

   por isso que te amo!

 Soltou-me sorrindo.

  Senti meu corao acelerar e torci para que nada daquilo estivesse acontecendo.
Fechei os olhos bem apertados e me mantive bem parada. Ouvi que passos leves
recuavam, ento abri meus olhos e vi que meu primo parecia preocupado.

  Quem era?  perguntei quase sem voz instantes depois.

  Douglas.

 Sa rpido da cozinha, mas quando estava atravessando a sala de jantar Caleb
segurou meu brao fazendo-me parar.

 Se for atrs dele tentar se explicar, ele vai entender que voc fez coisa errada
mesmo.  Aconselhou.

 O que voc sabe dessas coisas?!  disse me soltando e corri para a sala.

 Quando cheguei l, vi Melissa ligando a TV.

  Voc viu o Douglas?

  Saiu.

 Que timo! pensei correndo porta a fora.

  Corri pelo jardim at o porto, abri e o encontrei sentado na calada do outro lado da
rua. Quando eu estava quase chegando perto, ele se levantou e j ia saindo.

 Espera.  segurei seu brao. Ele demorou at virar para mim. Eu no fazia a
mnima ideia do que dizer  O que foi? Por que voc est assim?  Foi o melhor que
minha mente pde fazer.

             121
 Ele pareceu no acreditar.

 O que foi?! Nada... No aconteceu nada, no ?  disse-me, mas em nenhum
momento me encarava.

  Ento ele tinha entendido tudo errado mesmo?! Incrvel como as concluses so
tiradas assim... sem o mnimo de explicao.

 Exatamente, no aconteceu nada.  falei sria. Soltei seu brao.  Pode me
responder uma coisa?

 Douglas colocou as mos nos bolsos da cala e ficou olhando a rua.

  Claro.

  Por que os homens veem coisas onde no existem?

  Boa pergunta. Talvez eles vejam porque as mulheres insinuam coisas.

  Da eles fazem um julgamento e depois condenam...?

  Hmm, talvez.

  Claro, por que no pensei nisso antes?!

 No adiantava, eu no estava conseguindo ficar brava. O pior era que eu o desejava
nesse momento mais do que em qualquer outro, logo quando no posso encostar um
dedo sequer nele...

 Douglas era mestre em ficar em silncio, isso me deixava impaciente! Ele podia estar
pensando as piores coisas de mim e eu no poderia mand-lo parar de pensar e nem
de ficar calado.

  Fala comigo, por favor, Douglas.

 Ele me ignorou unindo ainda mais as sobrancelhas.

 Ok ento!  Fui para o meio da rua.  Vou esperar voc parar de pensar que eu te
tra com meu primo, a depois a gente conversa.  Sentei-me no asfalto. Minha sorte
era que a esse horrio da noite no passava muitos carros.  Ah, Douglas.  chamei.

 Ele virou o rosto na minha direo e enfim me olhou nos olhos.

  Posso fazer outra pergunta?

  Fala.  disse de m vontade.

  Voc acredita em tudo o que eu digo?

  Ele ficou me olhando um tempo, depois balanou a cabea positivamente e virou o
rosto para o outro lado.

  Eu no fiz nada, eu juro!

        122
  Vem vindo um carro,  melhor sair do meio da rua.

  Respirei fundo, levantei-me e fui sentar na calada de frente para a casa dos meus
tios.

 Arrg, por que a gente tem que brigar por besteira?  disse baixinho.

 Ele tambm se sentou.

 Isso vai demorar pensei esfregando a mo no rosto.

 O carro passou e eu j no sabia o que fazer. No via necessidade de pedir
desculpas visto que eu no havia feito nada de errado. Tambm no via necessidade
de fazer uma declarao de amor para ele, Douglas devia estar cheio de me ouvir
dizer Eu te amo. Mas quais eram as chances de isso dar errado? Mnimas, eu diria.

 Reuni foras e fui at ele de novo, sentei ao seu lado e pensei nas melhores palavras
para lhe dizer.

  O olhei por um instante depois coloquei o dedo em sua testa tentando desfazer o
vinco no meio de suas sobrancelhas. Ele me olhou e fez uma linha com os lbios.

 Foi inevitvel.  eu disse desculpando-me. Ele piscou algumas vezes tentando no
acreditar.  ia ficar uma marca de expresso horrvel depois.

 Ele soltou o ar que estava armazenado em seus pulmes pela boca e relaxou os
ombros.

  Isso...  falou aliviado. Ficou olhando para os prprios ps.

 No faz assim, meu amor. Se quiser me castigar tudo bem, eu aceito uma punio,
mas tenha d, no me ignore. No duvide de mim, voc sabe que  o nico homem
que amo. No duvide da minha fidelidade nem por um segundo, pois  do que eu
tenho mais orgulho.  As palavras iam sendo derramadas de forma suplicante.  A
gente no deveria estar brigando justo agora, vamos ficar um bom tempo sem nos ver.
 Suspirei.  pelo menos olhe para mim, finja que est me escutando...

 Ele virou relutante.

 Se eu soubesse que ficaria to irritado eu nem teria dirigido a palavra a Caleb.

  Irritado no, chateado.  ele disse.

 Olhei para a rua, triste. Escondi o rosto em meus braos que estavam apoiados nos
meus joelhos.

 Ele quer me matar... s pode!

 Douglas pareceu ter pensado um pouco. Ento respirou fundo.




             123
 Me desculpa, t?! Eu preferia mil vezes que estivesse gritando comigo agora, fui
um idiota em pensar que voc estaria tendo algo com seu primo. Eu acredito no que
voc diz. Eu estou errado e voc certa. Me desculpe.  Ele afagou minhas costas.

 Pensei por um tempinho. Levantei o rosto e tirei sua mo de mim.

 No, no desculpo no!  falei rpido, bastante engraado at. Ele arregalou os
olhos. Voc demorou demais para reconhecer que estava errado.  Levantei-me num
s impulso, ele me acompanhou um pouco mais devagar.  Ah, esqueci, isso  mal de
homem, sempre se desculpam depois que rios de lgrimas rolaram.  Tentei fazer o
mximo de gestos possveis. Ele mordeu os lbios para no rir.  Eu tenho cara de
palhaa, Douglas? T falando alguma coisa engraada para voc estar querendo rir?

  No, de forma alguma.

 Acho bom.  Cruzei os braos.  O que est esperando? Ajoelhe-se e pea
desculpas de novo!

 Ele sorriu e me abraou. Sorri tambm.

  Acho que amo voc.  falei a ele.

 , creio que sim meu amor.  disse-me, depois me deu um selinho.  Me desculpe
mais uma vez, voc no merecia o que eu fiz.

  Tudo bem, j passou.  Sorri.

 Ele segurou meu rosto e me olhou nos olhos, sorrindo.

  No sei o que eu faria sem voc...

  Eu sei que voc no sabe...  falei quase rindo.

 Ele continuou me olhando e eu mordi o canto da boca, sem jeito.

  Aaaahh... no agento!  beijou-me.




      124
                                 28 captulo
 Voltamos para casa, jantamos e, quase na hora de dormir, Caleb nos pediu
desculpas.

  melhor voc ir descansar se quiser acordar cedo para se despedir de mim. 
Douglas me falou.

 Dei-lhe um beijo no rosto.

 Boa noite.  disse a ele. Fui para o quarto da minha me, que  onde eu dormiria.

 Quando entrei minha me estava arrumando minha cama e meu pai j estava
dormindo.

  O que aconteceu, voc e Douglas brigaram?

 , mas j est tudo bem agora.  falei pegando um pijama na mala.

 Hmm. Eu e seu pai brigvamos demais no incio do nosso namoro.  comentou.

 Essa foi uma das poucas vezes que aconteceu.  disse dobrando a cala que eu
havia vestido. Samantha a pegou da minha mo, dobrou direito e guardou. 
Obrigada.

  De nada.  Deitou-se ao lado do meu pai.

 Vesti meu pijama e tambm fui dormir.

 Obrigada, Senhor, por mais um dia comecei a orar Obrigada por eu estar perto da
minha famlia, obrigada por ter me ajudado a resolver os impasses com Douglas ri
baixinho ele fica to bonitinho quando est srio, obrigada, Pai, por t-lo dado a mim.
Ai Deus, como  bom poder contar a Ti tudo o que se passa comigo, muito obrigada
por ser meu amigo

  Filha.  minha me me chamou.

  S um minuto.

 Em nome de Jesus, amm.

  Fala.  eu disse.

  Eu sou uma boa me?  perguntou sem jeito.

   sim.

 Ela ficou um tempinho quieta.

  O que eu fiz para voc ter me considerado uma boa me?

 Pensei um pouco.

          125
 Voc  minha amiga, se preocupa comigo... T certo que de vez em quando voc
pega no meu p, mas nada assim h que terrvel  Ns rimos.

  Te amo muito, filha.

  Tambm te amo, mame.  falei sorrindo.

 Fico muito contente quando voc est feliz, um dia tem que me contar o segredo
da sua felicidade.  Ela falava alegre  Notei que sorria o dia todo, seu rosto est mais
luminoso, diferente.

  Deus, mame. O amor de Deus por ns nos transforma, nos faz ver a vida com
outros olhos. Sabe, me, eu gostaria que voc e papai experimentassem esta
mudana. Seria to gostoso compartilhar isso com vocs, mas s O recebendo em
seus coraes vocs entenderiam o que significa ter uma vida modificada e guiada
pelo Criador.

  No me dou bem com crenas.

  mais que isso, me. No v? Estamos vivos porque Ele nos permite, Ele deu sua
prpria vida por amor  humanidade, Ele  o salvador de nossas almas. Ele sabe o
nome de cada estrela no cu, sabe o que se passa com cada ser aqui na Terra, e
conhece a cada uma das pessoas. O que  mais maravilhoso do que saber que Ele
cuida de ns?  Eu ri um pouco  Sabia que Ele passa o tempo todo esperando que
conversemos com Ele? O que Deus mais quer  que sejamos seus amigos, que
contemos a Ele tudo o que se passou no nosso dia...  ela me interrompeu.

 Mas sempre dizem que os olhos do Senhor esto em todos os lugares e bl, bl,
bl, ento para que falar?

  Ele quer que contemos a Ele... como os amigos fazem.

  Ah...

 Seria to bom se voc conseguisse sentir, assim como eu sinto Ele me abraar,
ouvir Sua voz suave e divina chamando seu nome, saber que algum est disposto a
ouvir suas angstias, seus problemas e seus segredos mais ntimos.  bom ter
certeza de que Ele est ao nosso lado disposto a nos ajudar, mas para isso
precisamos depositar nossas vidas em Suas mos. Entende?

  Acho que sim.

 Lembrei-me de Abigail.

  E o que pretende fazer agora?  eu disse.

  No sei, no tenho certeza.

 Hmm. Quando achar que  a hora  s dizer a Ele. Mas no se esquea que essa
deciso pode mudar a sua vida para melhor.  Lembrei-me de um fato.  Ah, mame,
quero lhe pedir uma coisa.

            126
  O que ?

  Me desculpe?

  Pelo qu?

 Por eu estar chateada com voc sem motivo, por brigar contigo, responder mal, por
dar s vezes impresso de que no me preocupo com vocs... Me desculpa t?!

 Desculpo sim, filha... Vamos dormir agora, est bem?

  Ta. Sorri.

                                           ...

 Eram oito da manh quando fui acordada por meu pai. Vesti meu hobby, me arrumei
e fui at a sala, ainda um pouco sonolenta.

  Douglas estava sentado no sof perto da janela me esperando. Fiquei parada perto
da soleira da porta olhando o ambiente. A luz transbordava no lugar, mas ainda assim
tinha um ar tristonho. Meu noivo estava com os cotovelos apoiados nos joelhos e
olhando para o cho, seus cabelos adquiriam tons avermelhados devido ao Sol. Daria
um belo quadro que poderia se chamar despedidas sem fim.

 Ele ouviu meus passos e levantou os olhos.

  T tudo bem com voc?  perguntei.

 Ele acenou com a cabea se levantando. Eu o abracei e ele me aninhou em seu
peito.

  No est chateada por eu ter de ir... est?

  No, eu entendo.

  Ainda vamos nos encontrar, eu prometo.

 Vai ser lindo... eu vou estar de branco e voc estar no altar me esperando...  Ns
rimos.

  No vai demorar tanto assim, n?!

  Quem sabe...

 Ele me deu um beijinho na boca.

  Tenho que ir agora, te ligo quando chegar, certo?!

  Ok!

 Acompanhei-o at o txi em frente a casa. O taxista colocou sua mala na parte
detrs do carro e eles partiram.


           127
 Voltei para a casa e fiquei sentada no sof onde Douglas estava. Minutos depois
meus pais vieram at mim, pegaram dois pufs e colocaram na minha frente, sentando-
se neles depois. Ergui uma das sobrancelhas, aquilo parecia combinado e ensaiado. O
que estava acontecendo?

  Algo errado?  perguntei desconfiada.

 ...  Meu pai deu um pigarro  ns sentimos muito, filha, por voc estar passando
tudo isso por nossa culpa.

  Eu no...  Comecei a dizer, mas minha me me interrompeu.

 No temos levado em considerao aquilo que voc acha que  certo, ns
queremos pedir desculpas por t-la tratado como criana quando na verdade voc j
tem idade o suficiente para fazer suas escolhas.  Ela olhou para Edgar.  Eu e seu
pai estvamos conversando e vimos que ns no agimos corretamente com voc,
portanto... est livre para voltar para casa.

  Minha boca se escancarou. Eu nem acreditava no que estava ouvindo! Era
simplesmente fantstico! E eu nem precisei for-los a isso.

  Levei a mo  boca. Meus olhos deviam estar brilhantes. Livre, eu estava livre para
fazer o que eu quisesse.

 Aqui est sua carta de alforria.  Meu pai estendeu a mo, e eu, boba, olhei sua
mo vazia. Ele riu de mim.

 Sorri para eles.

  Obrigada.

 Minha me ajeitou o cabelo.

  Mas  claro que ns vamos embora junto com voc, n?!

 Eu ri.

  Claro.  falei.

 Lembrei-me de Douglas.

 Levantei-me com uma ideia na cabea.

  Preciso avisar meu noivo.  falei indo para o quarto.

  Noivo?  Ouvi meu pai dizer.

 Tampei a boca e olhei para trs. Minha me parecia estar pensando em como contar
a novidade ao meu pai, acenou para mim deixando que eu sasse.

 Sa da sala e fui colocar uma roupa no quarto. Vesti-me rapidamente e peguei
emprestado a chave do carro do meu tio.

         128
 Aonde vai?  Caleb me perguntou quando me viu saindo rpido de casa.

  Aeroporto.

 Deixe que eu te leve, voc no vai conseguir chegar l sozinha.

  Certo, vista uma camisa e me encontre no carro em dois minutos.

 Fui tirar o carro da garagem.

 Espero que d tempo.

 Estacionei em frente a casa. Caleb entrou no carro, no lado do motorista, deu a
partida e acelerou bastante em direo ao aeroporto.

  Que urgncia  essa para falar com seu namorado?

 Meus pais resolveram voltar para casa.  falei animada  E no  namorado, agora
 noivo.  Sorri para ele.

  Parabns.  limitou-se a dizer.

  Obrigada.  falei virando para frente.

  srio. Parabns, fico feliz por vocs.  disse de olho no trnsito  Ele  um cara
muito bacana e voc  maravilhosa, combinam.

 Sorri.

  Valeu. Ah, voc bem que poderia nos visitar um dia...

 Miriam ia ter de me agradecer de joelhos ri com a ideia.

 , pode ser.  Tempos depois ele estacionou o carro.  Prontinho.

  Te devo uma.  falei fechando a porta.

 Subi rpido as escadas e sa correndo pelo saguo  procura do guich de
embarque.

 Procurei at me cansar e precisei parar para recuperar a respirao. Ele no estava
em lugar algum e os horrios dos avies para o nosso Estado ou j haviam ido ou
sairiam mais tarde.

  Ele se foi.  Suspirei.

 Tudo bem, quando me ligar contarei a novidade pensei me dirigindo  sada.

  Dei uma ltima olhada no lugar antes de sair e, para minha felicidade, encontrei o
rapaz mais doce do mundo sentado ao lado de um garotinho de cabelos cacheados e
olhos risonhos. Os dois conversavam como se fossem grandes amigos.

 Parei na porta e fiquei observando. Douglas dava gargalhadas das coisas que o
menino falava, era contagiante.
  129
 Fui at eles por trs e tampei os olhos do meu futuro esposo, o garoto me olhou
curioso, seus olhos eram grandes e brilhantes, pareciam mgicos. Pisquei para ele
brincando, ele retribuiu.

  Adivinha quem ?  eu disse a Douglas instantes depois.

  Carol?!  Levantou-se sorrindo e me abraou.  O que houve?

  Vou voltar para casa tambm.  falei animada.

 Ele me abraou mais forte. O menino deu um sorriso fabuloso.

 No disse que no demoraria?  falou quase rindo.  Ah, quero te apresentar  Ele
me soltou e segurou minha mo, mas parou de sbito.  Onde ele foi? Estava aqui
agora mesmo.

 Olhei em volta procurando o menino, mas no o encontrei.

  Mistrio...  disse-se pouco antes de me abraar de novo.

 Apoiei meu queixo em seu ombro. Vi o garoto do outro lado da vidraa que separava
o lugar onde ficavam os avies do lugar onde estvamos. Ele acenou e eu sorri para
ele.

 Num piscar de olhos o garoto dos cabelos cacheadinhos desapareceu.

  Mistrio...  repeti baixinho.




       130
                           29 captulo - Final
 Hoje  o grande dia! Eu dizia para mim mesma.

 Nunca  tarde para realizar os sonhos e os meus se realizariam daqui a pouco.

 Peguei um lbum de fotografias que foram tiradas no fim do ano retrasado e fui me
sentar num sof. Ali estavam as fotos do batismo dos meus pais e o meu, fotos
minhas e do Douglas, foto da formatura da Raquel, da namoradinha do Pepino, a
Pepita, filha da Miriam, e outras recordaes.

 Por ser uma data especial, meus familiares, meus amigos, at os que eu no via h
algum tempo, os parentes do Douglas e seus amigos, viriam para c.

 Eu estava um pouquinho nervosa, mas feliz. Esperei por isso tanto tempo, eu
contava os dias para me ver, finalmente, casada.

 Fechei o lbum e fui me olhar no espelho pela milsima vez para ver se estava tudo
em ordem.

 Perfeito!. Sorri.

  Meu vestido era uma gracinha, branco com detalhes prata. As alas eram grossas na
largura, ficavam nas dobras dos ombros, eram ligadas  faixa dos seios, e esta era
franzida. Junto  faixa estava um tecido fino prata, quase transparente que cobria o
restante do vestido, s no cobria um V que formava na frente devido ao corte do
prprio tecido fino. Tinha esse corte para dar mais movimento no tecido branco de
baixo. Nas costas, no meio da faixa ficava um tranado com uma fita prateada, a nica
forma de tirar o vestido era desamarrando a fita, que substitua o zper ou os botes. O
tranado lembrava um espartilho.

 Eu estava usando um colar prata com um pingente de corao que Douglas havia
me dado no culto de despedida.

 Meu cabelo estava repicado, cortado na metade das costas. A cabeleireira o havia
deixado um pouco ondulado para ficar mais bonito.

 Est na hora.  Miriam me disse. Ela era uma das minhas madrinhas, estava
deslumbrante num vestido rodado verde que combinava com seus olhos e dava
destaque aos seus cabelos cacheados vermelhos.

  Como estou?

  Fantstica!  falou sorrindo.

 Ela pegou o bouquet redondo de rosas vermelhas e brancas em cima da mesinha e
entregou-me depois de me abraar.

  Te desejo toda a felicidade do mundo, amiga.  disse-me.

  Obrigada.
           131
  Vamos logo seno vou comear a chorar aqui mesmo.

 Ns rimos.

 Ela foi me conduzindo at o carro em frente ao salo de beleza.

  Eram 16h40, a cerimnia havia comeado h 10 minutos. Seria realizada na minha
igreja e depois iramos para um stio onde aconteceria a festa.

 Meu corao comeou a acelerar, era sinal de que havamos chegado.

 Algum abriu a porta do carro e estendeu a mo para me ajudar a descer.
Atrapalhei-me toda com o vestido, isso nos rendeu muitas gargalhadas, mas enfim
consegui chegar inteira  porta da igreja.

 E ento a marcha nupcial comeou a tocar e meu pai se posicionou ao meu lado.

  Quero que saiba de uma coisa, filha  comeou meu pai.

 Olhei para ele.

 Mesmo que eu tenha deixado de dizer isto antes, eu te amo muito!  disse-me. Eu
o abracei.

  Tambm amo voc, papai.

 Ficamos uns instantes abraados at que ele me pegou pelo brao com um sorriso e
entramos na igreja.

 O lugar estava to cheio de gente que fiquei um pouco acanhada. Tentei esquecer
os olhares que me seguiam e prestei ateno no meu prncipe encantado todo
sorridente no altar.

 Douglas estava lindo com uma camisa social branca, um colete quase preto, uma
cala num tom um pouco mais claro que o colete e uma gravata azul. Seus cabelos
estavam mais brilhantes do que nunca.

 Meu pai me deu um beijo na testa e me entregou ao noivo. Entrelaamos nossos
dedos e nos posicionamos em frente ao pastor.

 Durante a cerimnia fui me lembrando de tudo o que havia passado, certamente a
vontade do Senhor estava sendo feita. Tudo se encaixava nos mnimos detalhes.
Cada coisa tinha seu propsito, seu desfecho e final feliz.

 Minhas amigas, scias do ateli, Leila, Renata, Camilla, Rayssa e minha melhor
amiga Miriam fizeram uma participao especial no meu casamento cantando
Pensando em voc, do grupo Voices. Era uma das minhas canes preferidas, no
perodo em que eu estava noiva vivia ouvindo esta msica. Sorri.

 Agora eu e ele estvamos juntos. Para sempre.

                                          ...

        132
 Prometo que esta  a ltima.  Melissa me disse ajeitando a mquina fotogrfica
em cima da mesa.

   a quinta vez que voc diz isso.  Ri de nervoso.

 Meu sorriso vai sair forado de novo.  Caleb se manifestou. Miriam, que estava ao
seu lado, deu-lhe um beijo na bochecha. Eles estavam namorando h dez meses.

 L vamos ns outra vez.  Douglas falou pegando Pepino no colo. Ele estava uma
graa com um corao pendurado na coleira.

 Raquel pegou Pepita e Melissa saiu correndo para fazer pose conosco.

 Depois de tirarmos mais fotos do que eu j havia tirado em toda minha breve vida, eu
e meu esposo fomos caminhar pelo stio.

 Sem dvida ali era o lugar perfeito! Estvamos completamente rodeados de flores
coloridas e belas rvores.

 Como j estava de noite ligaram os postes de luz e as vrias lmpadas penduradas
por toda parte.

  Os convidados estavam num imenso salo feito de madeira e vidro, com grandes
lustres antigos. Nas mesas havia um arranjo com detalhes em madeira com flores
brancas, rosas e lils. Nos cantos do salo colocaram grandes jarras de vidro tambm
com flores e no centro do lugar ficava uma grande mesa com docinhos e o bolo de
quatro andares escrito palavras como paz, amor, confiana, entre outras.

 Voc est linda!  Douglas me disse sorrindo.

  Obrigada, amor.  retribui o gesto.

 Ele pegou uma florzinha e colocou no meu cabelo enquanto andvamos pelo jardim.

 Quase ia me esquecendo  ele falou  fiz isso para voc.  Pegou um cartozinho
do bolso e me entregou.

  Estava escrito Eu amo a minha bela esposa! e desenhado um corao em volta da
frase.

  lindo!  falei feliz. Abraamo-nos.  Deus escolheu a pessoa certa para mim.
Amo voc Douglas.

  Tambm te amo, Carol.

 Olhei para o cu. A noite estava incrivelmente linda. De longe ouvamos uma msica
bonitinha, o barulho das guas de um riozinho, as folhas sendo remexidas pela brisa,
e eu conseguia ouvir os batimentos de seu corao.

 Eu gostaria de te dizer o que voc  para mim... mas no consigo expressar com
palavras.  eu disse a ele.


        133
 Ele beijou meus cabelos.

 Os momentos que passamos juntos so o suficiente para eu saber que voc gosta
de mim. Isso basta.

 Desencostei o rosto de seu peito e o olhei. Ele sorriu para mim ento dei um beijinho
em seus lbios.

 Algum nos chamou do salo. Segurei a mo do meu marido e fomos at l.

  Hora de jogar o bouquet.  disse minha me toda animada.

 Agatha me entregou as flores e eu subi no palquinho perto do salo. Fazia parte da
pista de dana, que era coberta com uma armao de madeira e enfeitada com flores
e lmpadas.

  As mulheres tomaram a pista e em meio ao empurra-empurra pude ver a ansiedade
da minha melhor amiga em pegar o buqu. No que eu quisesse facilitar, nem podia,
seria covardia com as outras moas que esperavam para se casar, mas ela queria
tanto...

 No, no posso.

 Tentei ser imparcial e me coloquei no meio certinho do palco.

  Um, dois e... trs.  Joguei o buqu.

 Seus olhos adquiriram um brilho ofuscante, seus corpos pareciam estar em chamas
e seus movimentos eram dignos de serem comparados aos de um felino em plena
caada. Quase pude sentir a adrenalina correndo em suas veias, tamanha era a
competio entre elas.

 Acho que exagerei.

  O ramo de flores caiu muito alm do grupinho de garotas, foi parar nos ps dos
rapazes que assistiam ao espetculo fora da rea da pista, num lugar menos perigoso,
eu diria.

  Fala srio, isso foi combinado?  Douglas me perguntou.

  No, no, eu juro.  falei rindo baixo.

 Caleb se abaixou depois de muito olhar o buqu no cho e o pegou. Miriam dava
pulinhos de felicidade. Meu primo passou a mo livre na nuca, respirou fundo e foi
andando devagar para o meio da pista. As garotas lhe deram espao.

  Pra voc.  Ele entregou as flores a ela.

 Ela pegou o buqu e sorriu. Caleb olhou em volta, parecia um pouco acanhado.
Miriam puxou o rosto dele para si, ergueu-se um pouco com as pontas dos ps e o
beijou.


         134
 E a galera vai ao delrio...  brincou meu pai, fingindo ser narrador de futebol.

Ns rimos.




             135
                                     EPLOGO
 Se eu soubesse que viveria to bem como estou vivendo agora, com certeza eu teria
passado por tudo aproveitando cada coisinha sem reclamar de nada.

 Meus pais vieram para minha cidadezinha e fiquei morando com eles em minha casa
at eu e Douglas comprarmos nosso apartamento e nos casarmos.

 Minha me montou uma perfumaria num bairro chique da cidade e meu pai voltou a
exercer a profisso de farmacutico.

 Agora neste ano, Miriam est concluindo a faculdade de Histria e algumas vezes
por semana d aulas no ateli. Eu tambm dou aulas l quando no estou nas escolas
onde fui contratada para ser professora de Educao Artstica.

  Douglas conseguiu um emprego como administrador de uma grande empresa da
cidade, mas de vez em quando ajuda o tio na empresa de jardinagem.

 Depois de trs anos de casados, resolvemos ter um filho. Tivemos a nossa querida
Elisa, agora com um ano de idade, que, neste momento, est tentando rabiscar a folha
do dirio que estou escrevendo.

  Aqui no pode, meu amor.  repreendi-a carinhosamente.

 Vai ter de comprar mais duas cartas, quem manda falar na hora errada?  meu pai
falou.

 Levantei os olhos e vi minha famlia jogando um jogo de cartas na mesa de jantar.

 Nosso apartamento era bastante espaoso e muito bem iluminado. Tinha trs
quartos e a varanda da sala era imensa, perfeita para Pepino ficar. Morvamos em um
edifcio num bairro muito tranqilo.

 Miriam e Caleb, agora casados h dois anos, moram numa casa quase de frente
para a casa dos meus pais. Raquel fica com eles quando no est na Universidade.

 Minha filha me olhou sorrindo.

 Voc quer jogar, meu bem?  perguntei a ela fazendo ccegas em sua barriguinha.

 Ela deu uma risada gostosa que fez todo mundo olhar para ns.

 Douglas nos jogou um beijo. E eu sorri para ele.

 Peguei Elisa no colo e fui me sentar numa banqueta perto deles.

 Aposto minha aliana que desta vez eu ganho.  brincou Caleb. Miriam deu uma
cotovelada em seu brao.

  Quem muito fala nada faz.  disse Douglas com um sorriso.

 Verdade. Compra mais quatro, meu genro. Quero a cor verde.  Meu pai ria.
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  Algum quer caf?  minha me perguntou da cozinha.

 Traz aqui para o Edgar e aproveita para nos dizer quais so as cartas dele.  pediu
Mriam.

  Haha, nem assim me venceriam.  meu pai se gabou.

 Elisa bateu a mozinha na mesa e, por um deslize do meu pai, pegou uma carta que
estava em sua mo.

 A-Ha! Um sete amarelo. Era do que precisvamos.  meu primo falou.

 Edgar fez uma careta. Minha filha comeou a rir.

  Tem o sorriso do pai.  comentou Miriam.

 Mas  linda como a me.  acrescentou Douglas fazendo carinho em meu ombro.

 No resisti, dei-lhe um beijinho.

  Amo voc!  disse ele em meu ouvido.

 Fiz carinho em seu rosto.

 Sem dvida, isso  o pedacinho do cu.

 Obrigada, Deus, por tudo!




Fim




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EXTRAS
Uma noite com Pepino Captulo 22



 Certo, vou repetir de novo. A sua cama  esta aqui.  Indiquei para Pepino, o
cachorrinho mais teimoso do mundo, sua cama perto da janela da sala.

 Ele ficou sentado na minha frente com uma carinha de quem nem est ligando.
Talvez quisesse dizer E da?

 Respirei fundo e fui para a cozinha beber gua. Ele me seguiu.

  Quer?

  Latiu e abanou o rabinho. Olhei em volta para lembrar onde eu havia deixado sua
tigela. Como no lembrei, peguei uma vasilha qualquer, enchi de gua e coloquei no
cho.

 Pepino bebeu tudo em dois tempos e foi saindo da cozinha.

 Coloquei meu copo e a vasilha na pia.

 Essa no!  Pepino estava deixando um rastro de baba de cachorro e gua recm
bebida pela casa toda.  Volta aqui...  Tentei par-lo.

 Para o meu infinito azar ele achou que eu estava brincando e comeou a competir
comigo para ver quem corria e pulava no sof mais rpido.

  Anda Pepino, fique quieto. Ainda pretendo ir  igreja hoje.

 Ele latia para mim quando derrubava algum objeto.

 Est na hora de ir para cama. Deixe de ser chato!  falei cansado, sentando-me no
sof.

 Ele, enfim, parou e ficou me olhando de debaixo da mesa.

  Tem pena de mim, vai?!

 Nada.

 O que sua me vai pensar quando eu disser que no sei cuidar de cachorro?

 Nada tambm.

  Eu sei que voc me odeia, mas v dormir. Pela Carol.

 Ele comeou a chorar.

 Ai meu Deus, t ferrado!

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 Levantei e fui at ele. Pepino recuou alguns passinhos, mas me deixou fazer carinho
nele depois.

 Trinta minutos se passaram e eu ainda estava sentado debaixo da mesa tentando
consolar o pobre animal. Minhas costas estavam doendo e minhas pernas tinham
cimbra.

 Peguei o celular no meu bolso e escrevi uma mensagem para Carol: O que fao p/ o
Pepino parar d chorar e ir dormir?

 Enviei.

  Instantes depois algum tocou a campainha. Pepino chorou um pouco mais baixo e
ficou vidrado na porta.

  Douglas, voc est a?  minha vizinha gritou de fora.

  T, pode entrar, Amlia.

 A senhora de seus 60 e poucos anos girou a maaneta e espiou por uma fenda da
porta.

  O que est fazendo debaixo da mesa, rapaz?

 Eu... t procurando minha aliana, caiu aqui em algum lugar.  Fingi procurar. Dizer
que estava com problemas com um filhote seria ruim para minha reputao.

  Certo. Pode me emprestar um pouco de acar?

  Claro. Entre a.

 Ela abriu a porta e Pepino saiu correndo na maior velocidade.

  Noooo!!!!  s pude dizer.

 Tentei sair o mais rpido possvel de debaixo da mesa.

  Desculpa, desculpa.  disse-me a mulher.

 Tudo bem.  Sa correndo do apartamento, desci as escadas quase voando.

 Quando cheguei  portaria, vi Pepino brincando com o sndico do edifcio.

 Vou ser expulso!  lamentei em voz alta. Pensei em voltar para o apartamento e
fingir que no era comigo, mas meu senso de coragem falou mais alto.

 Aproximei-me devagar fingindo que nada estava acontecendo. Quando cheguei perto
o suficiente Pepino veio pro meu lado abanando o rabinho como se estivesse me
conhecendo naquele instante. Ele pulava em mim e fazia a maior festa.

 Eu o encarei srio.

   seu?  o homem me perguntou.

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  Opa. O que disse?  fiz-me de surdo.

  O cachorro  seu?

  ... mais ou menos...  Dei um sorriso forado.

 Ah... sabe onde tem um desses para eu comprar?

 Fiquei tentado.

 Pode pegar de graa se quiser, eu queria dizer.

  Desculpe, senhor. Mas eu no sei.

  Que pena. Ele  muito inteligente e divertido.

   se ...  falei com certo pesar.

  Voc sabe se essa raa  obediente?

 Olhei para Pepino. Olhei para o sndico.

 Muito,  uma das melhores. Voc no tem noo de como ele  obediente.

 Olha...  Pepino latiu.  J est na nossa hora. Vou procurar me informar, depois te
digo. Vamos l, garoto?  chamei Pepino.

 Ele ficou me encarando.

 Esfreguei a mo no rosto de raiva.

 Abaixei-me rpido e peguei o cachorro.

  Precisamos ter uma conversa de homem para homem.  avisei Pepino.

 O elevador estava em manuteno e eu moro no 5 andar. Existe coisa pior do que
subir 10 lances de escada com um cachorro no colo que quer te morder? No. No
existe.

 Que timo, ela deixou a porta aberta.  falei desanimado quando, enfim, consegui
adentrar em meu apartamento.

 Desabei no sof.

 O culto havia comeado h meia hora e eu estava suado, arranhado, estressado,
babado e lotado de plo de cachorro.

 S.O.S. escrevi e enviei para o celular da Carol.

 Pepino estava xeretando a casa.

  Acho que ele ficar bem sozinho at eu terminar de tomar banho. Pensei
levantando-me preguiosamente.


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 O telefone tocou.

 Fui andando devagar at ele.

  Al?  falei querendo me sentar.

  Pensei que no te encontraria em casa, no foi ao culto hoje?

  Carol?  eu disse surpreso.

  .

 Meu corao comeou a acelerar.

 Meu amor, t tudo bem com voc? J chegou  casa de seus parentes? Estava
louco pra ouvir sua voz.  Eu estava muito feliz. At Pepino comeou a latir.

 J estou com saudade de voc, quero ir para casa.  disse-me.  Ns paramos na
chcara de uma tia, amanh continuaremos a viagem.

 Minha alegria se foi.

 Eu no a veria mais, seus pais a levaram para sempre.

 Abaixei a cabea.

  Voc no vai mais voltar, no  mesmo?

  Pelo jeito voc tambm perdeu a esperana...

  Eu te amo, no se esquea disso.  falei a ela.

Tambm te amo. A bateria do meu celular est acabando, tenho que desligar, ah,
sobre o Pepino, deixa ele dormir no seu quarto, assim ele pra de chorar.

 Tive medo.

 T bom.  Tentei parecer confiante.  A gente se fala outra hora. Boa noite, amo
muito voc.

  Boa noite.

 Desligamos.

 Engoli a seco.

 No sei como, mas ele parecia ter ouvido e entendido nossa conversa.

 De seu corpo parecia sair eletricidade, ele me encarava de forma desafiadora. Pude
perceber que ele olhou para a escada e comeou a dar passos em direo a ela
discretamente.

  No, voc no vai.  falei firme.


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 Ele pouco recuou.

 Dei um passo tambm em direo a escada.

  A ltima gota de suor do meu rosto parecia cair em cmera lenta, ela fez nosso
instinto selvagem aflorar. Seria a luta pela sobrevivncia. Venceria o mais forte.

 Dada a largada, Pepino e eu subimos correndo a escada.

 Tropeamos, camos, levantamos... mas no teve jeito.

 O sof  onde todos ns, querendo ou no, vamos dormir um dia.

 Esse dia havia chegado para mim.




Fim




     142
Vestido de noiva da Carol que eu mesma desenhei




                                                  143
                                 Agradecimentos


 Em primeiro lugar, agradeo ao meu grande Pai e amigo, Deus. Sem Ele eu no
saberia nem por onde comear essa histria. Agradeo a Ele por sua infinita bondade
e pacincia comigo, por estar sempre ao meu lado, por me dar coragem e
perseverana nos momentos de dificuldade.

 Agradeo a minha famlia por tudo! Compreenso, carinho, ateno, pacincia, e
principalmente por terem me apresentado ao Criador.

 Agradeo muito pelas minhas amigas Leila Agnoleti, Melissa Heringer, Thas Castro,
Renata Fricks, Ana Claudia Frana, Natlia Bissoli (Bella*), entre outras, que me
apoiaram com a histria, se dispondo a ler, comentar, elogiar, criticar, debater, e
principalmente me animar para continuar escrevendo. Tambm quero agradecer a
minha professora da faculdade, Gilcia de Lima, por ter corrigido a histria.

 Os momentos que eu passei construindo esta obra foram muitssimos especiais.
Aprendi muito, acredito que tenha amadurecido em alguns aspectos, encontrei apoio
contnuo, dei boas risadas, vibrei bastante junto com minhas amigas a respeito dos
personagens (pelos quais permaneo apaixonada)... Falem a verdade gente, o
Douglas no  uma gracinha?

 Desde j agradeo pelos atuais e pelos futuros leitores dessa histria. Que vocs
possam tirar pelo menos um fiapinho de proveito dessa obra. Que Deus abenoe a
cada um.




*A piada do pintinho caipira  dela.

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